Livre

Propósito maior

16/11/2017

Às vezes gostava de não ter lido tanto, não saber tanto, não ter estudado tanto. O conhecimento intelectual dá uma quebra na ansiedade emocional, contextualiza, dá estrutura mental à dúvida emocional. Mas pode atrapalhar o processo tento em conta o propósito maior.

Sentia-me acompanhada e devidamente satisfeita na época em que lia tudo quanto saía da Psychology Today, dos tumblrs dos estudantes americanos de Psicologia e do online counselling. Eram uma confirmação de que não era coisa da minha cabeça, impressão minha. Ajudaram-me imenso a manter-me sã. Era o olhar de fora de que precisava, sem necessariamente ter de me expor. Mas era generalista.

E o propósito maior de cada um é de cada um. É pessoal, intransmissível e singular.

Saber como funciona a nossa cabeça e o que está por trás de determinados comportamentos e atitudes fascina-me desde que me conheço. E sempre fui muito intuitiva nesse processo. Cedo me interessei por saber mais e até ter chegado a Jung não descansei. Jung veio responder e contextualizar todas as minhas dúvidas existenciais. E respondeu e responde até hoje, ele e seus contemporâneos e descendentes, a essa busca permanente pelo autoconhecimento.

Sou filha do patriarcado, preciso do selo de garantia do intelecto.

É quem me acalma os nervos. A questão é que não me resolve o problema. A ansiedade acalma, mas o conflito gerado entre o intelecto e a emoção permanece. E, não fosse eu tão sentimento, poderia boicotar o processo que leva ao tal propósito maior. As pessoas de função pensamento devem ter a vida mais facilitada, já que tomam decisões com base na lógica…

Quero acreditar

E acredito com todas as minhas forças, até porque não consigo viver de outra maneira. E não fosse o propósito maior protagonizado pelo Self. O meu pobre ego é que não tem paciência para a lentidão do processo. E nem a identificação pelo intelecto tem ajudado. Não lhe vejo sentido, não encontro o propósito tão bem escondido. Posso eventualmente chutar uns motivos, umas intenções, uns complexozinhos. Mas não me tem apetecido. Tenho dado preferência à vivência, em detrimento da análise, da elaboração. Tem me dado preguiça. Cansei da prepotência do ego que acha que dá conta de tudo. Que tudo tem solução. Que pode tudo.

A minha função sensação deve estar a querer aparecer

Por outro lado, não posso ignorar o vazio, a ansiedade que me leva a comportamentos autodestrutivos para acalmar o monstro desorientado e desembestado que mora na minha cabeça e está pronto a dar cabo de tudo. Entre outros sinais de que não vale a pena investir. Mas não consigo sair daqui. Mesmo depois de já ter feito tudo quanto posso, sei, conheço e me lembro para boicotar o processo, escapar-me por entre os pingos da chuva, bater de frente contra o muro, tentar pulá-lo.

Penso na espiral. Olho para trás e vejo que alguma coisa mudou. Que a consciência dos gatilhos me leva a controlar os ímpetos autodestrutivos e a pensar em alternativas construtivas para aliviar a pressão. Me conectar, em vez de tentar camuflar o vazio. Que inclusive já me é possível ficar no vazio, comover-me, sem tentar disfarçá-lo com consumos seja do que for. Mas ainda acho o processo lento demais. As forças opostas dentro de mim esgotam-me a paciência.

E nem o meu novo autor fetiche para me acalmar…

propósito maior

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