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Prozac

15/09/2013
Não existem estádios permanentes naturais, sejam eles quais forem. Ser normal é ser anormal. 
Não é natural ser permanentemente seguro ou inseguro. Saber sempre o que fazer ou nunca saber o que fazer. Estar sempre de bom humor, feliz, achar a vida uma maravilha, ser eufórico, por vezes histérico, ver algo de positivo em tudo quanto nos acontece. Ser de bem com a vida, como esta expressão me irrita… Nós não somos de bem com a vida, nós, quando muito, estamos… Tal como não é natural estar sempre de mau humor, de trombas, deprimido, chateado, de mal com tudo e com todos. Mal disposto, reclamão, queixoso, o que seja. Muito menos constantemente hiperativo, ativista, crítico, elogioso, ocupadíssimo, apático, sem interesse por nada ou interessado em milhares de coisas, especialmente se estiverem na moda. Menos ainda ser permanentemente dedicado a seja que causa for (isso é uma fuga e das grandes). Como não é normal ser sempre quieto ou sempre agitado, apesar de haver uma tendência maior ou menor para cada um dos tipos que poderemos chamar extrovertido e introvertido (Jung). 
Não é natural ser isto ou aquilo, eu cá sou assim, eu cá sou assado, isso simplesmente não existe, nós estamos longe de ser uma coisa só e se achamos isso ou temos 15 anos de idade ou sofremos de algum tipo de perturbação mental ao nível da amnésia. Ou então é falta de noção mesmo, necessidade de afirmação, de viver de acordo com uma (falsa) imagem que criámos sobre e para nós mesmos. Nem os personagens de ficção são tão permanentes. Não é natural sermos sempre racionais, calmos, zen. Ou raivosos, nervosos, impacientes. Não é natural não termos uma fúria, nem estarmos permanentemente furiosos. Não é natural sermos permanentemente indiferentes. Nem Apólo é tão controlado, tem os seus surtos de vez em quando. Nem Dionísio é tão histérico e/ou tão deprimido. Tem os seus momentos: nem sim nem não antes pelo contrário. Tal como não é natural fixarmo-nos ad infinitum no mal, isto é tudo uma merda, ou no bem, que bom que me aconteceu uma merda gigante, que feliz que eu fico com isso.
Parece que hoje em dia uma pessoa já não pode dar-se ao direito de estar triste, de se irritar, de perder a cabeça, a paciência e a razão sem que venha um chato de plantão qualquer exigir que mudemos o estado de espirito à força, porque sim, porque tem de ser. Pode E deve. Chama-se ser humano.  
Também não há pais perfeitos, mães perfeitas, irmãos perfeitos, maridos prefeitos, mulheres perfeitas, filhos perfeitos, famílias perfeitas, ahah, trabalhos perfeitos, países perfeitos, povos perfeitos, sistemas perfeitos, situações perfeitas, vidas perfeitas. A perfeição é uma ilusão como outra qualquer. Nem gente exclusivamente boa ou exclusivamente má, isso é uma invenção, provavelmente do catolicismo, e serve apenas para controlar as massas, para projetarmos nos bodes expiatórios da vida o que não reconhecemos em nós, por se nos afigurar horrendo, indigno, abjeto. Enquanto crucificamos o outro, não olhamos para a nossa própria cruz.

Não há vidas, pessoas, perfeitas, há vidas, pessoas possíveis. 

O natural e o normal, ao contrário do que nos querem vender as Caras da vida, as Celebs da vida, e os perfis nas redes sociais e nos blogs da vida, é termos altos e baixos, é termos dias sim, dias não, dias mais ou menos, e até mesmo oscilações de humor num dia só. Isto não é ser bipolar, desequilibrado, ou outro epíteto do género, isto é ser normal e, atrevo-me a dizer, equilibrado.

Quem vos quiser convencer do contrário, sério, tem problemas. Afaste-se dessa gente e, acima de tudo, não a inveje. O custo emocional disso é altíssimo… É gente que vive para mostrar aos outros, quanto mais vivemos para mostrar aos outros mais nos afastamos de nós. E para nos reaproximarmos de nós mesmos é o diabo…

Tal como não somos só pensamento ou só intuição ou só sentimento ou só sensação (Jung, again). Somos tudo isso, as que são mais visíveis são a nossa tendência natural, as outras são as nossas funções inferiores, que precisamos de desenvolver, inclusive. 
Pela mesma ordem de ideias, não somos só ego, só sombra, só persona, só anima, só animus, só self. Muito menos somos só Apólo, só Dionísio, só Hera, só Afrodite, só um dos 14 do Olimpo
Essa necessidade de termos por força de separar, de decidir a toda a hora se somos isto ou aquilo revela, na verdade, um desequilíbrio psíquico que, normalmente, é momentâneo. No resto do tempo sabemos que somos uma coisa e outra, e às vezes tudo ao mesmo tempo… 
E é isso aí, aguente. E espere que passe, com tempo para integrar o que houver para integrar, sem pressa, sem prozac. 
E se o seu estádio for permanente há anos, se vive em qualquer tipo de extremo, peça ajuda, consulte um especialista. Cultivar um estádio, seja ele qual for, permanentemente, só vai levá-lo a um lado, à insanidade. Você é muito mais do que isso, para o bem e para o mal, não faça de um momento, de uma condição, de um estádio, a sua identidade. Não sei nem como é que aguenta, sinceramente… 

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  • Hismindaway 16/09/2013 at 00:28

    Completamente de acordo… E só haverá um dia em que saberemos se fomos ou não felizes, será o dia em que olharemos para trás e perceberemos se tudo o que foi valeu a pena, se somos felizes com o passado ;) Digo eu que sou novo. Mas acho que só aí saberemos se fomos felizes ou se a nossa felicidade se perdeu pelo caminho…

    • Isa 16/09/2013 at 00:47

      no entretanto, é seguir vivendo, com coragem, sem grande apego ;)

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