Quanto mais vejo o RAP no Governo Sombra, mais me orgulho de ter nascido no mesmo país que ele.

12/09/2016

Ainda que estando longe de partilhar as suas convicções políticas. A inteligência de Ricardo Araújo Pereira, e a minha, vão além disso. E a postura dele encaixa na minha forma ideal de comunicação, seja para receber informação seja para criticar, apontar o dedo, trazer a lume. É bem humorado e jamais agressivo, insultuoso ou estúpido, sem no entanto deixar de dizer o que pensa e defender os valores nos quais acredita, com uma inteligência acima da média. É esta a postura pública dele e quem me dera que mais houvesse assim. É brilhante, atrevo-me a dizer. O facto de ser comuna é para o lado que durmo melhor. O que me interessa são valores e não clubes, quem define o que eu defendo e acredito sou eu, não um gajo qualquer, um partido político, um clube de futebol.

O tema da vez era a entrevista ao super-juiz. Dizia ele que cada vez se irritava mais com a atitude e o tipo de comentário que os portugueses não se cansam, aparentemente, de exultar e admirar. O de sofredor. Ai, que eu sou um desgraçadinho, não tiro férias, ganho mal, não almoço. E isto é motivo de orgulho, merece palmas e uivos de êxtase por parte da populaça. E perguntava-se se seria ele o único marxista, quiçá mortal, que gosta de comer bem, beber melhor, de fumar, de conforto, e nem sequer falou em luxos, o máximo que fez foi sacar de um charutão quando se falou na proibição de fumar eletrodomésticos que deitam vapor de água cá para fora em locais públicos.

Estas pessoas que se orgulham de não almoçar, de trabalhar muito sem serem remuneradas por isso, de não ter férias, são as mesmas que se queixam precisamente de não ter dinheiro para férias, de não ter tempo, e, desculpem que vos diga, talvez as responsáveis pelo abuso que se vê por aí por parte de quem contrata gente para trabalhar de borla. Só se contrata gente para trabalhar de borla porque há gente que aceita. Que acha normal, porque toda a gente o faz, que o mercado é assim. O mercado, imagine-se… E que se não for assim não tem emprego. E eu gostava de saber como é que esta gente se sustenta se afinal paga para trabalhar. E que um miúdo ou uma miúda de vinte e tal anos acredite nisto ainda vá que não vá, que os pais desta gente aceitem e incentivem isto é como quem me mata. A mensagem que estão a passar a esta miudagem é que o trabalho deles não vale nada, pelo contrário, é tão inútil que têm de pagar para o fazer e quem os contrata no fundo está a fazer-lhes uma caridadezinha.

Esta coisa portuguesa de que a virtude está no sofrimento. Não está, quem gosta de sofrer é mártir e que eu saiba todos nós somos pecadores demais para sequer almejar a tal estatuto. E que uma coisa é espírito de sacrifício. Se eu quiser correr uma maratona, vou ter de correr todos os dias determinado número de quilómetros, a isso chama-se espírito de sacrifício, e não ficar em casa alapada no sofá a comer bolos e depois achar que corro 42km como quem passeia na praia. Gostar de sofrer é outra coisa, é correr 20km debaixo da chapa do sol das duas da tarde de agosto. Para além de gostar de sofrer é ser estúpido, irresponsável, inconsequente e convencido de que se é deus.

No polo oposto estão as pessoas que acham que tudo lhes é devido, que é seu por direito sem fazerem o mínimo esforço para o conseguir. Pessoas que acham que têm o direito de ter carro, juro, há gente que acredita nisto piamente. Exceção feita ao básico para sobreviver em sociedade, saúde, justiça, segurança e educação, que devem ser garantidos pelo Estado – é para isso que um gajo paga impostos, e não para sustentar reformas vitalícias, ao fim de 12 anos de suposto serviço ao país, de 200 macacos que sentam o rabo no Parlamento uma vez por semana para se pegarem à chapada e andarem ali a medir pilinhas, como se estivessem na escola – tudo o resto se conquista. Claro que toda a gente tem o direito de ter o que quiser, desde que o compre. Tal como o cidadão comum tem direito a estar numa escola onde haja aulas e não chova, num hospital onde haja uma cama, num tribunal onde haja um defensor público que lhe garanta defesa, de andar na rua sem correr o risco de ser assaltado em cada esquina ou de levar um balázio na cabeça. O cidadão comum tem direito ao mínimo, e precisa de aprender a exigir o mínimo, e quem é servidor público de aprender a responder a essa necessidade, sendo o Estado o garante disso. Caso contrário vamos todos viver para a selva que deve sair mais barato. E não, o mínimo não é subjetivo… No entanto, se quiser luxo, pague colégios, hospitais, advogados e seguranças privados.

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