Livre

Quem não lê, faz o quê?

08/06/2016

Não me lembro que idade tinha quando comecei a ler, muito menos qual o primeiro livro que li, mas lembro-me da sensação de o acabar, uma conquista, talvez seja por isso que, até hoje, leio rápido, muito provavelmente em busca dessa sensação, que está longe de ser a primordial. Depois desse, a sensação boa desapareceu, sendo substituída por uma certa nostalgia, o que faço eu agora sem estas pessoas na minha vida? Rapidamente passava para outro, numa tentativa de substituir aquele vazio, sempre atenta à pilha por ler que ia descendo vertiginosamente à medida que a pilha dos lidos me desaparecia da vista diretamente para as estantes. Acho que agora lhe chamariam crise de ansiedade, aquela sensação de quase pânico causada por não ter nada para ler. A vida sem livros era uma tristeza, um tédio de morte.

aler

O Mundo dos livros é infinitamente melhor do que o meu, com mais vida do que eu, onde estavam constantemente a acontecer coisas e as pessoas se relacionavam decentemente umas com as outras. Havia um equilíbrio entre os bons relacionamentos e os que eram de certa forma forçados.

Lembro-me de ter ficado em casa de uns primos uma semana e de a ter passado toda a ler, no quarto da minha prima havia uns seis ou sete livros da Patrícia que não tinha lido e achei por bem não perder a oportunidade. Passei tardes e tardes de ócio dos eternos verões da adolescência e da pré-adolescência a ler. Lembro-me de me custar abandonar um livro para sair de casa, porque tinha combinado sair com amigos. Ou para comer…

Ler é de cada um, o meu pai era leitor compulsivo, a minha mãe, aos dez anos, ia a pé para a escola para poupar o dinheiro que lhe davam para esse fim e com ele comprar livros. A casa dos meus pais está pejada de livros, enciclopédias, dicionários e obras completas de tudo quanto é escritor português, entre outros. O meu irmão mais velho lê compulsivamente, como o meu pai e eu, os dois mais novos não tanto, o caçula deve ter lido uns dois ou três livros na vida.

Depois fui para a universidade e proibi-me de ler, exceto nas férias de verão, a sede era tanta que lia uns 5 ou 6 livros em três meses. Porque quando começava, não parava mais, as histórias tomavam conta de mim: só mais um capítulo, só mais um… Eram tardes de praia e noites inteiras nisto. Para além de precisar de estudar, tinha uma infinitude de livros para ler para as aulas. E essa quebra quase me fez acreditar que tinha deixado de ler, perdido o hábito. Comparativamente com o que era, bem entendido, parar de ler nunca parei. Pegava num autor e era até esgotar. Mas digamos que começaram a faltar-me autores, depois de ter despachado todos os Hermann Hesse que havia no mercado, menos um. Tive várias fases, houve uma época em que entrei no mundo dos britânicos com sentido de humor e eram uns atrás dos outros, em inglês. Uma coisa é traduzir, ver filmes com legendas, ler um artigozinho ou outro, outra é ler literatura, livros inteiros. Vencer a barreira de ler noutra língua, a inglesa, abriu-me os horizontes para o mundo todo.

Uns anos valentes depois fui para o Brasil, descobri o Jung e, nos últimos 6 anos, praticamente só li psicologia. Que é uma leitura de certa forma menos compulsiva, porque é ao mesmo tempo um estudo. Na mesma pós-graduação, descobri o gosto pelas histórias de vida, em particular pelo génio da biografia que é o Ruy Castro, e li umas quantas. Foram as únicas coisas que trouxe do Brasil, livros, e ainda deixei lá uns quantos… No Brasil, também descobri o Erico Veríssimo. Apaixonei-me por um certo Capitão Rodrigo e li O Tempo e o Vento de uma assentada só, são sete volumes.

Recentemente, voltei à literatura, e àquele ponto em que não saio para lado nenhum sem um livro na mala, em que me apetece mil vezes ficar a ler do que fazer o que quer que seja.

Ontem, depois de receber um mail da FNAC a dizer que o livro que tinha encomendado já tinha chegado – isto porque estou a acabar o Arquipélago e já só tenho A Vida no Campo para ler, a crise de ansiedade voltou e com ela a vontade de ler até esgotar – aproveitei e trouxe o último da Isabel Zambujal para oferecer ao Joãozinho, que, com 7 anos, já lê livros inteiros. Lembro-me da surpresa que foi quando o ouvi ler pela primeira vez, até me comovi. Desde que nasceu que lhe dou livros, as crianças que lêem são mal compreendidas, só lê, fica ali sem fazer nada. Como assim, sem fazer nada? Ler é fazer tudo, é estimular a imaginação, dar asas à criatividade, pensar, sentir, experimentar todo o tipo de emoções sem ser penalizado ou castigado por isso. Viver todas as aventuras que lhe apetecer, com coragem e inteligência. Em adultos, também nos distrai de nós. Já me vinha embora e eis que leio as palavras mágicas: Ruy Castro, Chega de Saudade. Uma biografia sobre a História da Bossa Nova, intriga e romance, com personagens reais, ídolos, pessoas normais, deprimidos e questionadores como tu e eu.

Prometo sempre que não compro mais livros enquanto não acabar os que aqui tenho, até a mão me escapar para o próximo e quando dou por mim, já o paguei.

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