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Realidade x Ficção

27/09/2013
Há um filme brasileiro chamado Carlota Joaquina em que a própria Carlota, Marieta Severo no seu melhor, aparece com dentes podres e a coçar-se toda por estar carregada de piolhos. O D. João é retratado como um javardo, que come que nem um porco. Obviamente não gostei da caricatura, porque aquilo é tudo tão mau que só pode ser uma caricatura… E se é para caricaturar, que tenha graça…

Já a produção daquela série maravilhosa chamada Tudors em vez de retratar o Henrique VIII como um gordo, nojento e feio, para além de porco e com um mau hálito péssimo, escolheu o jeitoso do Jonathan Rhys Meyers para representar o papel do Rei inglês, conhecido pela quantidade de mulheres que tinha à disposição. Da mesma forma que achei o Carlota Joaquina um nojo sem tamanho, achei certa a escolha do ator no caso dos Tudors.

O que seria da Casa da Pradaria se as miúdas, filhas do Charles ou lá como é que ele se chamava, tivessem os cabelos oleosos ou baços, como seria de esperar de rapariguinhas do campo no século XIX, ao invés de os terem brilhantes e bonitos? 

Se quisesse saber se o Henrique VIII era mesmo gordo, feio e fedorento, ia ler livros de História. Se quiser saber se o D. João era um javardo, esfomeado, que não sabia comer à mesa, se é que isso é verdade, custa-me a crer que um rei não soubesse comer à mesa e passasse fome ao ponto de comer como se não houvesse amanhã, ia ler livros de História. Se quiser saber de factos, leio enciclopédias. Se quiser saber como é a realidade, vejo documentários, leio livros de História, que, mal ou bem, são o mais próximo dessa tal de realidade possível. Tendo em conta que são escritos por pessoas e pessoas têm preferências, pontos de vista, lados que preferem mostrar e ideias que querem transmitir, já para não falar na inexorabilidade do espírito da época, que condiciona, e muito, a forma como vemos as coisas. Se quiser saber da realidade como ela é, da vida como ela é em determinados lugares, o que há para saber sobre determinado tema, leio Jornalismo Literário.

Mas, quando vejo cinema, séries e leio ficção, é exatamente isso que quero, ficção, coisas bonitinhas, cenários bem feitos, personagens, não pessoas, bem construídas o suficiente para convencer, bem representadas o suficiente para provocar empatia ou repúdio, histórias coerentes, roteiros bem escritos, bons, de preferência, surpreendentes, mas, ao mesmo tempo, consistentes, que não me firam os olhos com detalhes não tão bonitos, que não me agridam com relatos não tão exatos, mas o mais próximo possível do que seria a realidade, só que, ainda assim, ficcionada. Dá-se preferência à qualidade literária, à beleza estética, à coerência dos personagens, não à verdade dos factos, isso é pros tribunais, pra vida de todos os dias. É por isso que as coisas são, quando são…, baseadas em factos reais, não são reproduções exatas, precisas, da realidade, senão ninguém vê… Também é por isso que não há filme nenhum, série nenhuma, que não tenha uma advertência no final a dizer que é uma obra de ficção. É por isso que os livros estão catalogados como literatura, História, e tal. Bem como os filmes. Estão até em secções separadas nas livrarias. É procurar o que se quer, sem medos nem nervoso. E desfrutar, sem encher muito a paciência alheia, de preferência…

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  • Pedro 28/09/2013 at 10:47

    É curioso essa tua visão. Eu por acaso, por defeito de profissão, costumo achar sempre tudo demasiado limpinho e perfeitinho. Isto é, muito pouco real.
    Por outro lado, há outros pormenores errados nas produções históricas, que a maior parte das pessoas não se apercebe / desconhece. Por exemplo, as formas de tratamento.

    • Isa 28/09/2013 at 13:48

      bom, acho que depende do tipo de ficção que cada um tem em mente ;)

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