Livre

#Respect

04/05/2015

Estava ali a começar a ler uma notícia do Público sobre uma moça que se suicidou nos Estados Unidos e a pensar em como é incrível o quão desprezadas são as doenças psíquicas quando comparadas às doenças físicas.

As doenças físicas despertam a atenção dos predadores psíquicos trazendo à tona alguma complacência, as psíquicas despertam o desprezo, a raiva, muitas vezes a crueldade com que se lida com quem as carrega. Ou a pena, que consegue ser ainda pior. Como se as doenças físicas e a pobreza fossem infortúnios da vida e as doenças psíquicas fossem propositais, alguém escolhesse ser deprimido, bipolar, borderline. No aproveitamento que muitas vezes há de doenças seríssimas por parte de gente que não passa simplesmente de um manipulador emocional, um control freak, os famosos desgraçadinhos, que não estão minimamente interessado em cuidar de si, numa vida melhor, apenas em fazer a vida num inferno a toda a gente. Em como o facto de isso ser tão comum mina e prejudica quem está em sérias dificuldades e precisa mesmo de ajuda, esteja aos gritos, muitas vezes silenciosos, e ninguém lhe dê a mínima importância, até acontecer uma desgraça…

No quão vulnerável é a nossa mente e no quanto a vemos poderosa, intocável, impenetrável ao que quer que seja. O quanto fingimos que não vemos as questões psíquicas, que degeneram em doenças por isso mesmo, por não terem sido consideradas a tempo, cuidadas, tratadas. No facto de se ver o suicídio como uma cobardia, quando é um ato do mais puro desespero, de uma impotência avassaladora, o quanto se esconde, por estar provado que há uma série de casos que se seguem depois de se ter conhecimento de um. As desculpas que damos, a tentativa de contradizer alguém que visivelmente está com um problema, em vez de perder 5 minutos a olhar para a pessoa com olhos de ver, a abraçar e a ouvir, de verdade. Sem soluções, sem comparações. Procurando quem melhor o possa ajudar, com amor, não como quem se livra de um fardo. Na pouca importância que é dada às doenças da cabeça, em como são conotadas, na crueldade com que são tratada pelo comum mortal. Em como a terapia é vista em Portugal, no facto inegável de que toda a gente deveria fazê-la, haveria certamente muito menos maledicência e frustração.

No estigma tão, tão errado que tem a doença mental, a questão psíquica, nem quero saber como é considerada, mas sei que ninguém a quer aceitar, ao facto de, nos casos mais graves, as chamadas psicoses, precisar muitas vezes de compensações químicas para poder levar uma vida tradicional. Não digo normal porque a “normalidade” leva muita gente a achar-se inadequada e anormal, com vergonha de si, apenas por ser diferente dos demais, sem necessariamente ter qualquer problema psicológico, mas convence-se disso e não consegue chegar a lado nenhum por conta do estigma, do quanto vê a sua diferença como um defeito e não como uma característica, sentindo-se muitas vezes um alien, quando é um ser especialíssimo e só precisa de amor para o perceber de uma vez por todas. No lado da “normalidade”, no quanto é prejudicial para toda a gente essa tentativa de ser normal, sabe deus o que isso é, castrando eventualmente partes suas que a distinguiriam pelos melhores motivos, fazendo o que “toda a gente faz”, quem é toda a gente, peloamordedeus, forçando situações, tendo filhos porque toda a gente tem, casando porque toda a gente casa, porque está na hora, porque faz sentido, por pressão social, e não por querer verdadeiramente, de coração. E por aí vai.

E depois lembrei-me de uma frase genial da minha professora de dança: os loucos não fazem terapia, não se reconhecem como tal, quem faz terapia honestamente são as pessoas que têm de lidar com eles e sentem-se a ficar como tal, restando-lhes ainda a sanidade suficiente para procurarem quem as ajude a entenderem-se e decididamente a aceitarem-se, para que possam ser autênticas e assim fazer alguma coisa consigo e com as suas vidas.

E desta frase: “People of character do the right thing not because they think it will change the world but because they refuse to be changed by the world*”, que me há de inspirar nos dias em que o meu predador psíquico espreita pela janela da consciência a ver se há um espacinho para tomar conta do leme, ou quando já lá se instalou e eu nem me dei conta. Apesar de eventualmente a adaptar, assim: “People with a heart do the right thing for them not because they think it will change the world but because they refuse to be changed by the world”.

*Via @Georg_Grey

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