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Rótulos 2/2

29/08/2013

O mais pernicioso dos rótulos é a forma quase categórica como acabam com qualquer tipo de esperança de melhoria das nossas vidas, por nos impedirem de nos desenvolvermos cada vez mais, de descobrirmos mais e mais sobre nós mesmos. Mesmo que essas descobertas não nos sejam tão agradáveis.

Daí que mais importante do que compartimentar e colar rótulos com todos os nomes, adjetivos, condições, neuroses e psicoses possíveis, e não menosprezando obviamente as descobertas incríveis que se têm feito nesse campo, mais importante do que nomear é, como diria Jung, ver a forma como cada complexo se manifesta na nossa vida de todos os dias, seja ela profissional, familiar ou afetiva.

Em muitos dos posts que traduzo aqui, dos blogs de psicologia que sigo, o rótulo que mais aparece é o de baixa autoestima.

A autoestima não é uma condição a que somos votados, muitas vezes de forma fatalista, é uma consequência de algum trauma emocional. Podemos ser lindos e sofrer de baixa autoestima; podemos ser inteligentíssimos e sofrer de baixa autoestima; ricos e sofrer de baixa autoestima; podemos ter um corpo escultural e sermos do mais inseguro possível. Que é, no fundo, do que se trata quando falamos de autoestima: insegurança, disfarcêmo-la como quisermos. Daí que não adianta de grande coisa combater o mal pondo uma compressa. E o que mais há por aí são profissionais do efeito placebo. E adeptos. Dou de barato que ajude, mas não adianta, não resolve, apenas adia o problema. O buraco é sempre mais em baixo, sempre. 

A autoestima, mais uma vez, é uma consequência, não uma condição. Tal como o é o complexo de vítima, de poder, de inferioridade, de superioridade, são exatamente o mesmo, mas em pólos opostos, e tantos, tantos outros. Consequências e, por isso mesmo, mutáveis. Uma consequência depende de uma ação, que tem por detrás um motivo emocional na grande maioria das vezes desconhecido. É pra isso que serve o auto-conhecimento, para descobrirmos o que está por detrás de cada ação, cada comportamento. E quando, e se, a ação muda, a consequência tem necessariamente de ser outra.  
Ao contrário de Freud, que catalogava e pronto, fazia parte do espírito da época e ele era na verdade um cientista, daí que tinha uma série de requisitos a cumprir, votando as pessoas ao fatalismo, Jung – muitas vezes chamado de místico e desprezado por muitos adeptos da ciência pura e dura -, contrariando o espírito da época com uma coragem incrível, estava mais interessado em descobrir os mistérios insondáveis que envolvem a nossa psique e, por inerência, os nossos comportamentos. Com isso, melhorou a vida de muita gente, que de contrário estaria confinada a um sanatório para o resto das suas vidas. E é por isso que me identifico tanto com ele e com os que se lhe seguiram, mesmo que tenham negado algumas das suas descobertas, lhes tenham dado outro nome, tenham seguido o seu caminho, que é o que todos nós devemos fazer, bebamos da fonte que bebermos. Mesmo assim, é tudo gente que não desistiu e não desistiu acima de tudo de si mesma. O Campbell é um excelente exemplo e nem seguidor de Jung, muito menos psicólogo, era. Gente que mais do que a psique, estuda a nossa alma, nos ajuda a descobrir o nosso propósito, o nosso dom, o que viemos cá fazer, por ser só isso que nos preenche verdadeiramente, venha o mundo comum querer impor o que quer que seja, casamento, filhos, carreira, prestígio, status, o diabo. O que mais há por aí é gente que faz operações estéticas como quem compra pão e continua a odiar-se. Gente casada, com emprego, filhos, casa própria, rendimento fixo e infeliz de dar dó. Gente que tem tudo e continua insaciável. Independentemente da sua importância, de fazer parte da vida, da nossa evolução, não passam normalmente de comportamentos compensatórios. 
Não desmerecendo outras necessidades que devem ser supridas, que se podem resumir basicamente a um conforto físico e emocional, essa supressão deveria acontecer em paralelo com a nutrição da alma. Há que olhar para dentro e perceber o que faz o nosso coraçãozinho disparar, o que reverbera cá dentro sem que consigamos explicar porquê, o que nos comove, move, o que nos deixa ao mesmo tempo sem controlo nenhum sobre nós mesmos e sobre o mundo, e por outro lado tão cheios de tudo, tão preenchidos, mesmo que nada de materializável possa ser observado.

Não é fácil descobrir e não é fácil pôr em prática, mas há uma força incrível que nos empurra para a frente, nos imprime uma imensa coragem e que faz com que tudo seja mais leve, é a força do self, da alma, do nosso eu divino. Tudo o resto vem por acréscimo, quase como que por magia.

Mais importante do que cair na tentação de rotular, sabe deus como é fácil, é não desistirmos de nós mesmos, nunca, jamais, em tempo algum. 

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  • apocalyptca 29/08/2013 at 22:54

    Excelente!!!

  • Bocagiano 29/08/2013 at 23:10

    :) Sempre com a paleta bem arrumada para pincelar.

    • Isa 30/08/2013 at 04:47

      gostei muito da imagem da paleta cheia de cores disponíveis :)

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