Livre

Round and Round

15/12/2015

Há variadíssimos motivos pelos quais não expomos o que sentimos e o que verdadeiramente queremos, de uma situação ou de alguém, e todos são válidos. Seja porque o que sentimos não foi acolhido, pelo contrário, foi ridicularizado e diminuído e por isso nos habituámos a esconde-lo, seja porque não queremos dar esse poder ao outro, para ele fazer com os nossos sentimentos e a expressão das nossas necessidades o que bem entender, nomeadamente usá-las contra nós e a seu favor, seja porque “não queremos dar parte de fracos”, seja porque nem sequer fazemos ideia do que sentimos ou, pelo menos, de como o expressar.

E é por isso que discutimos no tu, cobrando do outro a satisfação de necessidades que nem sequer sabemos que temos, em vez de falarmos a partir do eu, de como nos sentimos na sequência desta e daquela atitude, palavra, ato ou omissão. E obviamente quando falamos em comunicar a partir do eu é ao coração que nos referimos, não ao ego, que é auto-referente. Quando falamos no tu, em tom acusatório, de quem cobra uma dívida, a reação é a esperada, defesa. Já quando falamos a partir do eu, do coração, pode ser que a reação seja de acolhimento e que a consequência seja uma mudança de atitude, que vá ao encontro de uma necessidade real, de dentro, nossa. Não como quem pede uma solução, a salvação, a supressão de uma carência, mas como quem se reconhece. Quando falamos a partir do eu estamos a dar oportunidade a que as coisas mudem, quando falamos a partir do tu queremos apenas controlar o outro e que ele se subjugue.

Seja qual for a reação do outro, o que importa é o termos reconhecido e validado necessidades nossas que nós próprios escondemos toda uma vida, suportando-nos no ego que nos defende, nos protege, mas também não deixa viver quem quer que seja que está preso no porão escuro da nossa cabeça à espera de uma brecha para sair descontrolado. Reconhecemos todos esses seres que moram em nós e damos-lhes espaço para pelo menos existirem, aprendendo o que podemos fazer por eles para que não se sintam diminuídos, sozinhos, presos e frustrados. E é quando os reconhecemos, os olhamos nos olhos, fazemos o que eles que precisam que façamos por eles, assumindo-os como as partes de nós que mais precisam de reconhecimento, acolhimento, aceitação, validação e amor, que deixam de nos tomar à força.

Reconhecer essas pessoas é permiti-las de alguma forma viver sem que tenham de o fazer à revelia da nossa sanidade mental, tomando-nos a consciência e destruindo todos os outros, ego incluído, sem os quais não sobreviveremos.

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