Salvador

15/12/2016

A morte deixa-me sempre apática. Incapaz de fazer seja o que for, sem reação, energia, capacidade de resposta. Com a sensação de cérebro vazio, cheio apenas da presença de quem se foi embora para sempre. Mais ainda quando não é suposto, se trata de alguém doce, querido e simpático, como o Salvador.

Há sempre quem venha teorizar sobre a morte, queira definir prioridades, ordem de importância. Quem tem direito a chorar mais. Quem mais perde. Ninguém duvida de que perdem mais os mais próximos, como é evidente. Mas a relação com quem parte e o nível de sofrimento de quem fica é emocional. Mesmo que não se conheça bem, mal ou de todo, como é o caso das estrelas, das figuras públicas.

Os massacres chocam, as guerras apavoram, mas, por pior que possa soar, aquelas pessoas não me dizem nada. Choca-me mais a capacidade e a cegueira de quem concebe e leva adiante uma guerra, do que as mortes que nela ocorrem. As guerras banalizam a morte. Independentemente de o valor da vida humana ser o mesmo em relação ao Zé da esquina e ao David Bowie. Cuja morte, apesar de com ele não privar, me chocou, como me chocou a do Prince. Porque eles, sim, dizem-me e muito.

Mais do que o David Bowie e o Prince diz-me o Salvador. Ainda que não possa afirmar que fossemos íntimos, gostava dele, imenso, apesar de o ver pouco. A última vez tinha sido há ano e meio. Era amigo de amigos e conhecia-o de casa deles, há uns 20 anos, por aí… Depois de não o ver durante 5 anos, por conta da minha temporada no Brasil, achei que entretanto havia alguma coisa que tinha perdido. Senti falta do brilho especial. Só o carinho que nutria por ele me permitiu senti-lo. Havia nele uma tristeza que não lhe conhecia. Não combinava com o sempre sorridente Salvador.

Gostava-lhe da simpatia, da gentileza, da doçura, da generosidade, da postura sempre cool e do ar de quem percebia sempre mais do que dava a entender, sendo suficientemente cavalheiro e generoso para o calar. Do jeito de moleque e da tranquilidade.

Sou surpreendida com a notícia na segunda-feira à noite e só peço alto que seja mentira, que tenha havido um engano, que não seja ele, que afinal parece que se safou. E dou por mim a pensar no que andamos aqui a fazer. Sem dizermos nada uns aos outros, feridos nos nossos egozinhos. Sem lhes fazermos saber que são queridos, amados, que por eles nutrimos apreço e gratidão. E um dia vão-se embora sem o ouvirem, sem terem esse gostinho, esse calor na alma, esse aconchego no coração. Nunca disse ao Salvador que gostava dele, mas tenho a certeza de que o sabia, os nossos olhos e sorrisos eram suficientemente comunicativos para o expressarem sem medo e com afeto. Ainda assim, fiquei a pensar no que andamos aqui a fazer. E como é possível imaginar o mundo sem o sorriso, a simpatia e a generosidade do Salvador.

Foi-se embora cedo de mais e há três dias que não consigo fazer grande coisa. Apenas pensar nele, na mulher e nos filhos, amputados de pai tão cedo. E desejar do fundo do coração que tudo seja o menos penoso possível. Para os miúdos e para a T, que tem de levar o barco sozinha.

Até sempre, querido Salvador.

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