Livre

Meu Santo é Forte

13/06/2016

É ainda com o cérebro afogado em sangria que vos dou conta de que afinal não sou tão lisboeta quanto imaginei, talvez seja demasiado burguesinha, falta-me o lado popularucho. O popularucho alheio, inclusive, meio que me embaraça.stoantonio

Dei-me conta ontem que, aos 44 quase 45 anos de vida, nunca tinha ido à avenida ver as marchas, que cometi o pecado capital de dizer que eram uma cópia do Carnaval carioca, o que se vive na Sapucaí, para logo ser corrigida pelo meu amigo mais cosmopolita e mais popularucho: o carnaval do Rio é que se inspira nas nossas marchas. Sim, é verdade, vi a Porta-Bandeira, faltaram os mestre de sala. Vi as fatiotas, faltaram os tapa-sexo, o glitter e as estrelas nos mamilos. Depois, ocorreu-me que aqui se comemoram os Santos e que talvez tudo do que me lembrei fosse um despropósito e a comparação uma perda de tempo. As saias são todas iguais, ali pela altura dos joelhos, não há criatividade, ousadia, mas há brilho e lantejoulas para dar e vender. Faltam sorrisos, falta a bateria a entrar-nos coração adentro, falta o samba no pé. Há saracoteio à medida de um povo temente a deus e devoto de Nossa Sra. de Fátima. Faltam os catadores de latinha, não falta quem vá apanhando o lixo das ruas. Falta animação,  joie de vivre, alegria, apesar da concentração, do nervoso, da competição. Há votações, quem ganhe e quem morra na praia, sempre, como na vida de todos os dias. Não falta o espírito do povo nas ruas, a alegria estampada nos rostos, os sorrisos rasgados, os refrões das músicas que nos envergonham cantados com vigor, a lascívia, as hormonas, o desejo nos olhos. Falta ousadia onde sobra vontade.

Outra coisa que nunca tinha feito, era uma visita ao Santo António. Vê-lo ali, altaneiro e rodeado de velas, mexeu comigo, como sempre mexe a fé. Chocou-me que se lhe atirassem moedas, está com uma criança ao colo, é o padroeiro dos namorados, depois admiram-se que não vos satisfaça os desejos. Atirarem-lhe moedas, mas que raio de devoção é a vossa? Pior do que atirarem-lhe moedas, só quem rouba as moedas dos devotos, há verdadeiros profissionais da arte. A Yara apareceu com velas para todos e nós, cada um de sua vez, acendemos uma vela e fizemos os nossos pedidos. Mais amor, por favor, para o mundo. Fiz a minha tentativa de atirar uma moeda a ver se acertava no livro, num movimento de baixo para cima, com delicadeza, que é como se deve chamar o amor, não atirando como quem lança o disco, com força, em jeito de ameaça, vocês deviam ter vergonha… Não cheguei ao livro, mas não perdi a esperança. De cabeça encostada para trás, olhos no santo, com demasiada sangria no bucho para pensar no que quer que fosse, tomada pela imagem, pelo que representa, deixei-me ficar ali, a olhar para ele, com pose de menina, esquecida do mundo, ignorando as vozes, os ladrões de moedas, o tilintar das mesmas na estátua, a música pimba a ressoar em cada colina, no meu momento particular com o Santo António. E só agora, aos 44 quase 45 anos de vida, me apercebo do que é a moedinha para o Santo.

Deu para matar saudades de São Paulo em particular e do Brasil em geral, num determinado momento achei que estava em Salvador. Deu para ficar muito séria e baixar a cabeça ao me lembrar do meu pai, por ter passado por duas das instituições onde trabalhou e exerceu os mais altos cargos, deu para flirtar com os moços da super bock e os castiços da Mouraria, deu para me sentir no metro em hora de ponta, deu para dançar em frente ao Bicaense, que nunca desilude, um oásis de música decente no meio de tanta parolada, quase me esqueci de que tinha pernas, deu para tudo, as cruzes não mandaram lembranças e a conclusão a que chego é que já não tenho saúde para isto. Nem pernas, nem cabeça que aguente vinho martelado.

*Foto roubada à Yara e cropada por mim

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  • Luciana Nepomuceno 13/06/2016 at 21:59

    Deu muita saudade de Lisboa, ler este seu post. Uma saudade boa, de quem tem coisas queridas pra lembrar. Considero as marchas mais parecidas com as quadrilhas nordestinas (ou o contrário, que é como o tempo ensina que deve ser) do que com as escolas de samba, porém com uma enorme distância que você mesma insinuou no quesito alegria. Mas achei bonito, quando vi, pelo orgulho.

    • Isa 13/06/2016 at 22:21

      Não conheço as quadrilhas, vi o quatrilho e acho a dança muito parecida com as que se dançam aqui, no norte do país, as tradicionais. As marchas estão longe de parecer as escolas de samba, mas o princípio é o mesmo, o desfile e tudo o que foi descrito acima. No entanto, ao contrário do que acontece na Sapucaí – nunca fui, estive no sambódromo de São Paulo, apenas, desfilei no ensaio geral da Gaviões, o som da bateria deixa-me alegre, a alegria das pessoas é mesmo contagiante, não dá para ficar indiferente, parado – as marchas portuguesas deixam-me um pouco constrangida… :) Mexeu comigo o Santo António, isso mexeu… :)

  • Renata Bocran 14/06/2016 at 01:52

    Isabel, sou uma brasileira que esteve em Lisboa uma vez, mas que se emocionou tanto andando por essas ruas que não consegue pensar nesse lugar sem sentir uma saudade imensa e um engasgo na garganta. Seu texto me transportou pra lá e me deixou tão, tão feliz. Obrigada por essa viagem.

    • Isa 14/06/2016 at 08:29

      Que bom, a tua felicidade me deixa feliz também :) obrigada eu :)

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