Livre

Se isto não é esquizofrénico, vou ali e já venho…

24/03/2015

Estou aqui a fazer uma coisa contra a minha vontade, não interessa em nome de quê, o que interessa é que poderia estar a fazer o que adoro fazer, que é escrever, em nome exatamente disso que não interessa. Mas, por motivos que não vêm ao caso, escolhi fazer uma coisa que odeio em vez de fazer uma que adoro, que sei, para a qual estou mais que preparada, porque é uma paixão e às paixões e aos dons dedicamos todo o tempo do mundo, sem qualquer esforço, mesmo quando uma ínfima parte relacionada ao que gostamos de fazer nos dá menos prazer – e na qual me sinto maravilhosamente, o que, por inerência, irá fazer bem a outros.

Tudo o que é feito com alma toca e serve a quem está preparado para o receber, como tudo o que é feito só com profissionalismo não toca, tem de haver paixão.

Vai daí, comecei a ter uma vontade incontrolável de comer chocolate. Outras pessoas têm outras vontades igualmente autodestrutivas e igualmente prazerosas, para compensar o facto de estarem a fazer algo contra a sua vontade, quando sabem que seriam mais felizes e mais úteis a fazer aquilo que sabem fazer e que vai ao encontro do que se propuseram fazer para contribuir para o bem comum.

Vai daí, saí de casa para comprar um chocolate específico, mas como não me apetecia pegar no carro para ir ao dia comprar o chocolate de cereais de 100g , achei que me orientava com um crunch, que era o mais parecido com a vontade primeira. Não havia, por isso trouxe um de amêndoas de 150g, porque, lá está, o meu cérebro associou que em momentos assim, a única coisa que salva é chocolate. Foi de amêndoas porque não sei quem falou em nestlé de amêndoa no twitter no outro dia e eu lembrei-me que há séculos não comia Nestlé de amêndoas (no Brasil, os chocolates são de 300g e eu não estava pra isso, se era para emborcar 300g, que fosse de Diamante Negro). E, como boa compulsiva, emborquei aquilo tudo, mesmo estando enjoada que nem um peru, ao fim da segunda fila de quatro quadrados. Ou seja, o que era para ser um prazer virou um desprazer ao fim de 5 segundos, que é o tempo que levo a comer uma fila de 4 quadrados de chocolate. Tudo numa tentativa de compensar a frustração que é ter de fazer o que não me apetece nada fazer e que ainda por cima toca em complexos vários, os complexos têm sempre origem em frustrações, que me levam a cair na tentação de adiar a promessa de não reclamar por uma semana, para daqui a 15 dias.

Imediatamente a seguir, senti as calças a apertar nas coxas, logo agora que estava a ficar magrinha e tronchuda e que vêm aí 29º de temperatura, aliados à vontade de usar shorts para ver se ponho uma corzinha que se veja nas pernas que estão finalmente a começar a ficar bem boas. E foi nesse momento que me pus aqui a cogitar na esquizofrenia que é a vida. E vim aqui contar-vos tudo.

A pessoa faz coisas de que não gosta para ganhar dinheiro, para poder pagar contas e tal, naturalmente, como toda a gente. Mas como não está feliz a fazer o que está a fazer, e porque se comprometeu a fazê-lo – dando primazia ao que o mundo comum dita como sendo de valor, e não ao que ela individualmente acha que é de valor – vai adotar comportamentos autodestrutivos, que, por mais prazer que lhe dêem, o desprazer será sempre maior. Além de que invariavelmente irá gastar o dinheiro que ganha a fazer coisas que odeia para tratar de problemas decorrentes de estar a fazer coisas que odeia. Ou então vai especializar-se em reclamar e com isso encher a paciência de quem também está frustrado com a vida e resolve ir à procura de coisas que o façam sentir menos mal – apesar de com isso se impedir de agir no sentido de começar a fazer coisas de que gosta – e, eventualmente, o irem fazer parar exatamente onde está, frustrado e a adotar comportamentos autodestrutivos. Mas, como a miséria adora companhia, não contente com o facto de ser um frustrado e de se ver votado à amargura para o resto da vida, resolve que irá arrastar consigo tantos quantos conseguir.

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