Search results for

woody

Salvadorable – Quanto mais ouço o Salvador Sobral, mais me apaixono.

15/05/2017

Começamos por identificar Caetano, em Ay Amor, e Woody Allen, reconhecido e reputado jazzista, em todos os solos de trompete. E, aos poucos, vamos descobrindo Salvador, que chega devagarinho, sem pedir licença, seguro mas não impositivo, como deve ser. Até nos esquecermos de tudo ficarmos só com ele, a voz, o piano, do virtuoso Júlio Resende, a melodia, o humanismo, a vulnerabilidade e a beleza tranquila de quem está apaziguado consigo mesmo.

Entra devagarinho pela alma adentro. Primeiro a melodia, em plena harmonia com o fluxo sanguíneo, percorrendo o corpo todo até chegar ao coração. Depois a pureza da voz, de um anjo, como já alguém disse, o epíteto Salvadorable assenta-lhe que nem uma luva. Um anjo com swing e algo mais para que não encontro as palavras.

A música do Salvador comunica diretamente com a alma sem passar pelo cérebro. Ouço o disco sem parar e gosto cada vez mais. Por ser bom, subtil, por se ir descobrindo à medida que a resistência vai baixando, até que o consigamos sentir apenas com a alma e o coração, que Salvador Sobral entrega à música, à voz, à arte, com uma mestria uma graça, uma autenticidade sem igual.

Salvadorable

Como se inconscientemente soubéssemos que não mais seremos os mesmos depois de o ouvirmos e nos deixarmos tocar pela magia. E por isso resistimos, é humano resistir antes da rendição. No caso de Salvadorable, é apenas uma perda de tempo. De que só nos damos conta quando tudo em nós se funde com a música, a voz, os instrumentos, a melodia, tornando-nos parte da orquestra, elevando-nos.

Salvador Sobral, devolve a melodia à alma, fazendo de nós Ready for Love Again

E se uma vida digna não passa pela capacidade de nos rendermos à beleza, à poesia, à emoção, à ligação, fusionando-nos, deixando-nos comover com a nossa impotência perante o sublime, não sei o que será.

Parabéns, Salvador, és a coisa mais bonita que aconteceu a este velho e desacreditado país, devolveste-nos a alma, que é também a nossa essência. E nada pode ser mais apaziguador do que isso.

Obrigada

Mais para Midnight in Paris do que para Cafe Society

02/11/2016

Prefiro os filmes do Woody Allen que acabam com pessoas a concretizar sonhos que as deixem felizes to the core, como Midnight in Paris. Mas Café Society era decididamente o filme que precisava de ver, no qual Woody não condena à infelicidade extrema dois amantes apenas porque escolheram a persona social e a aceitação do mundo comum para viver as suas vidas. Em vez de se decidirem pelo que acreditavam, eles em particular, contribuir para a sua felicidade, de acordo com as suas crenças, os seus valores, as suas prioridades em relação ao que faz da vida digna de ser vivida, e prazerosa. Não lhes antevemos uma vida tranquila e feliz, até porque o coletivo satisfaz até uma certa medida, depois queremos ir mais longe, mais profundamente, e o problema do social e do coletivo é precisamente a superficialidade, que não se coaduna com o vínculo, que pressupõe intimidade, que por sua vez obriga a alguma vulnerabilidade, inadmissível no coletivo. O facto de estarem ambos entre os seus, na noite de fim-de-ano, de corpo presente e com a cabeça longe, muito provavelmente naquele lugar conhecido de todos chamado: e se… leva-nos a pensar que se seguirá uma vida de frustração, amargura e culpabilizações várias, que levarão eventualmente à inevitável traição, porque te escolhi, tu não correspondes às expectativas e acima de tudo ao meu esforço nesta empreitada. Quando quem abdicou de quem e de quê fomos nós, muitas vezes em prol do que é suposto ser a vida, como se o que satisfaz um satisfizesse todos por igual, independentemente de termos todos as mesmas necessidades, satisfazemo-las é de formas diferentes, de acordo com as nossas prioridades, o que não conseguimos viver sem. O que Woody mostra em Café Society é que há sim uma satisfação na vida orientada para o social, o ego, a persona, que tem as suas compensações, que satisfaz um lado nosso e que a escolha do lado que decidimos satisfazer determina grande parte do percurso que se segue. E aos 40s logo se vê…

Cinematograficamente brilhante, como sempre, nada a apontar (exceto talvez a escolha de Kristen Stewart, juro que não entendo). Confirma-se, Woody e Burton são os únicos que ainda me arrastam para o cinema em semana de estreia.

Magic in the Moonlight*

16/05/2016

Este fim-de-semana, dei-me conta que, aos 80 anos, Woody Allen continua a fazer um filme por ano. Mais do que gostar de saber que concretizamos sonhos mais ou menos ambiciosos até ao fim, que somos capazes de continuar a produzir, e bem, até tão tarde na vida, o que me encanta verdadeiramente é assistir à evolução psíquica de alguém, pela via da arte. Woody Allen é dos melhores exemplos que conheço.

Estava à procura do Homem Irracional, percebi que afinal já o tinha visto, não há muito tempo, e do qual não tinha gostado, quando me deparei no IMDB com o Magic in the Moonlight, que me passou ao lado no ano de estreia e que agora me seduziu imediatamente. Não só pelo facto de o ator principal ser britânico, Colin Firth, como por ter, logo no título, duas das palavras que mais me encantam na língua inglesa. Gosto do simbolismo da primeira e da sonoridade poética da segunda.

Apesar de voltarmos ao que nos é conhecido, à nossa sombra, que nunca nos larga, como em O Homem Irracional, é bonito ver que a magia acaba sempre por nos conquistar, por mais grumpy que sejamos, nos tenhamos tornado. E que sem magia a vida não tem graça.

Há um motivo para sermos grumpy, há sempre um motivo, às vezes um conjunto de motivos, psíquico, para justificar as nossas escolhas, a nossa maneira de ver o mundo e de nos posicionarmos na vida. E há o que nos espera, o que é esperado de nós, não pelos nossos ou pelo coletivo, não exclusivamente, pelo menos, mas pelo nosso eu mais profundo, o que sabe o que é verdadeiramente nosso e não um produto da família ou do contexto sociocultural onde nascemos e nos desenvolvemos. Que se prende com o que nos move, o que desejamos para nós, lá bem no fundinho, o que nos completa e nos faz felizes, a nós, ao nosso coração, à nossa alma. Tudo o resto, nomeadamente o reconhecimento público, vem por acréscimo. O reconhecimento público é uma consequência, não um objetivo a atingir.

Mais do que palavras e acusações, explicações e provas, nada melhor do que ver, constatar com o intelecto mas também com a emoção. Em Magic in the Moonlight o efeito do ego e da persona, que escondem um narcisismo patológico,no protagonista são claros. Ele precisa de Sophie, com ela voltou a rir, a beber, a festejar, o que ganharia ela em troca? A oportunidade de privar com o maior, o melhor, o incrível. O que, em vez de surtir o efeito pretendido, afasta qualquer um, porque assusta, porque todos nós temos necessidade de nos sentirmos necessários, de saber que contribuímos ativamente para que o outro se sinta uma pessoa melhor, mais completa, e faça tudo para chegar ao melhor de si.

Interessante ver o quão perniciosa pode ser a nossa grumpyness… Se, por um lado, queremos que gostem de nós apesar da nossa grumpyness, porque faz parte do pacote, é ela que não só impede de comunicar o nosso verdadeiro desejo, de sermos amados, como impede quem quer que seja de se aproximar. O sinal é claro, eu não quero que venhas aqui abalar a minha estrutura tão fragilmente montada, não quero que invadas a muralha que construí à minha volta, porque me mantém seguro, apesar de ausente de verdadeiro contacto.

Outra questão bonita de se ver é a redenção da lógica, do racional, do científico, à magia do amor, do acreditar sem provar, da fé, da ilusão de que todos precisamos para conseguir suportar a realidade que nos é inevitável.

Magic in the Moonlight deixa-nos de sorriso cândido no rosto, ainda que a redenção pelo amor não esteja ao alcance de todos, exceto na ficção, por medo, nomeadamente de perder o controlo, que nos deixa seguros, mas que nos limita, deixando-nos a treinar truques de cartas fechados em quartos de hotel, com cenários paradisíacos lá fora, à nossa espera.

magiaaoluar

Homem Irracional

11/02/2016

Interessante estar ao lado de alguém complicado, é fácil envolvermo-nos emocionalmente e desenvolver sentimentos românticos por almas tristes, que ainda assim não desistem de buscar, despertam a necessidade de ajudar, de as trazer para a vida, por serem autodestrutivos, o que é bastante diferente de drama kings and queens, para esses não há paciência. Atração pela inteligência, fascínio pelo conhecimento, vontade de estar perto e beber de toda aquela experiência. Concentrarmo-nos no outro (juiz) é uma das melhores e mais eficazes formas de fugirmos de nós, de não nos concentrarmos na nossa própria amargura. O mundo é um lugar melhor sem o juiz, mas será um melhor lugar com alguém que se acha suficientemente superior ao ponto de planear e matar outra pessoa, independentemente dos motivos racionais que encontra para o fazer? O motivo para viver foi encontrado no crime, os seus desejos, anseios e vontades não são suficientemente valorizados para tal, tomando assim o controlo da sua vida nas suas mãos, parando de reclamar da vida e tomando atitudes, escolhendo agir. A fuga para o romantismo é tão boa e tão eficaz quanto outra qualquer para fugirmos da realidade, é uma forma mais feliz, mas é uma fuga: too romantic to shy away from risks. Celebrar a vida em vez de pensar sobre ela dá-lhe um sentido, nem que seja o the sheer joy of living. Adotamos comportamentos autodestrutivos para nos sentirmos vivos, a vida tem o sentido que quisermos dar-lhe. As sensações são mais vivas quando nos voltamos para a vida, as cores mais brilhantes, os cheios mais intensos e apurados, os sons mais puros. Nem tudo pode ser compreendido intelectualmente. If it feels right, it is. E vice-versa, já que falamos nisso. In order to see the world, we need to get away from the familiar acceptance of it. Adoto um comportamento criminoso para me sentir vivo e ao me sentir vivo consigo amar, escrever, fazer tudo o que me faz sentir bem. Lessons you can’t get from any text book.

hirracional

Grande personagem de Joaquin Phoenix, o homem irracional, professor de filosofia, conhecida, acima de tudo, por primar pela racionalidade, apesar de não nos levar a lado nenhum, porque não apresenta soluções, como ele diria e eu já disse várias vezes, a filosofia é puro onanismo mental.

É o que se me apraz reter e dizer sobre o último filme de Woody Allen. O final fez-me sorrir :)

Not killing ourselves for recognition

04/02/2014

Nas acusações feitas recentemente a Woody Allen – acusações essas que não são novidade, apenas uma repetição do que já se tinha feito há uns anos, acusações que nem chegaram a ver a luz do dia num tribunal, dado que sequer houve processo – muitas pessoas se perguntam o que teria Dylan a ganhar com tamanha exposição (“por isso, deve ser verdade”).

A resposta é simples: atenção. A dele, inclusive, coisa que Mia Farrow também conseguiria. Mia Farrow que nunca engoliu a história de ser trocada por uma mulher mais nova (sim, a japa era uma mulher, com plena posse das suas faculdades mentais, quando Woody Allen assumiu um relacionamento com ela), como nunca deve ter engolido o facto de ela e Woody nunca terem sequer morado juntos.

E sim, nós somos como os cães e as crianças, quanto mais atenção queremos, mais asneiras fazemos, mais nos expomos, mais nos prejudicamos. E a forma como aprendemos a chamar a atenção vem da audiência que nos dão. Há quem tenha percebido que conseguia a atenção dos pais berrando, se vitimizando, ficando doente, se lamentando, e por aí vai. E é essa forma que irá persistir pelo resto da vida, se acaso não fizermos qualquer coisinha por nós, nomeadamente: resolvermo-nos. É pernicioso, ao mesmo tempo que temos a atenção, limitamos a nossa vida a isso, procurando inconscientemente situações e circunstâncias que nos façam cair nessa falácia. Temos atenção, mas não saímos do buraco, porque quem atraímos com esse tipo de atitude não nos quer ajudar, apenas quer viver dessa desgraça, alimentando a sua própria necessidade de desgraça.

Com acusações gravíssimas destas, Mia também consegue manchar a reputação de Woody Allen para sempre, mesmo que, mais uma vez, o caso não veja a luz do dia num tribunal, a dúvida persistirá sempre.

O que Mia Farrow não percebe, nem Dylan, é que, aconteça o que acontecer a Woody Allen, isso não lhes vai mudar ou resolver a vida, sequer trazê-lo de volta. Aconteça o que acontecer a Allen, Mia Farrow jamais será feliz, porque não é a tentar destruir a vida dos outros que atingimos a felicidade e a paz de espírito, mas a cuidar da nossa, a resolver a nossa.

error: Content is protected !!