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Seja o que Deus quiser…

05/03/2008

Tendo por base aquela tira da Mafaldinha em que ela pergunta ao Filipe se no dicionário: não diz que [a sopa] é um palavrão e/ou uma porcaria nojenta?, de acordo com as instruções: produção de comentário pessoal, escrito na primeira pessoa, que reflicta a experiência subjectiva do leitor/observador em face do objecto proposto. […] Quaisquer ângulos de abordagem são válidos desde que o texto se apresente bem estruturado nos planos conceptual e linguístico; 1500 a 1800 caracteres (com espaços), escrevi isto para mandar para a coordenadora do curso que espero vir a frequentar já prá semana:

Dos direitos e obrigações
Numa primeira fase da vida achamos que só temos direitos. As nossas obrigações resumem-se a comer a sopa, arrumar o quarto, fazer a cama. Fazêmo-lo achando que é um frete, uma chatice.

As obrigações aumentam à medida que avançamos. Desde cedo é-nos imposto o sentido da responsabilidade sob pena de sofrermos uma punição: tiveste uma má nota? Não vês televisão, não sais com os teus amigos… Continuando a achar que temos apenas direitos, o direito de ter direitos, lá vamos “cumprindo com as nossas obrigações”.

Apesar de ainda não nos condicionar de forma “permanente”, exercemos o nosso direito à escolha desde cedo, aos 15 anos. Aos 18 temos de escolher o que vamos estudar durante pelo menos 4 anos. Responsabilizamo-nos pelas nossas escolhas. Se por acaso forem erradas, temos tempo de nos arrepender e seguir outro rumo. Sofremos as consequências dos “anos perdidos” mas ao menos temos a satisfação de acreditar que mudamos porque somos mais felizes a escrever do que a advogar, a criar do que a administrar…

A vida mostra-nos que, às vezes, as nossas escolhas não vão bem ao encontro do que existe disponível para fazermos. Daí que façamos de tudo um pouco. A nossa obrigação é trabalhar para nos sustentarmos. O nosso direito à escolha fica assim limitado ao que existe, pelo menos profissionalmente… Só temos obrigações… Vamos aqui e ali por obrigação, porque parece mal não ir, por causa das represálias…

E uns anos depois, com alguma maturidade a ajudar, aprendemos a distinguir entre as verdadeiras obrigações e os fretes que não queremos mais fazer. Não nos obrigamos a nada, fazemos por gosto, por egoísmo disfarçado de altruísmo. Deixamos de fazer fretes profissionais e pessoais. Fazemos finalmente o que nos apetece, o que a nossa consciência deixar.

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  • Miguel Sarafana 06/03/2008 at 00:29

    Grande texto Isa. Dá mesmo que pensar. Mas este “seja o que Deus quiser”, pode também levar-nos a uma estranha ironia, que é, de repente, a Mafalada que há em nós perceber que até gostava de comer aquela sopa (ou pelo menos de poder renegá-la) e que aquela alienigena papa verde nos faz uma falta enorme. Como se a escolha tivesse sido encontrada naquilo que antes tanto se fez por afastar. Achas

  • Vicissitude(s) 06/03/2008 at 10:38

    bom texto.

    Só quero referir um “insólito”, na verificação das palavras quando queremos comentar, apareceu-me a seguinte combinação.

    trotsky.

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