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Sem ética vira selva, sem paixão vira tédio…

02/09/2015

No texto desta semana, Ivan Martins pergunta se vale tudo quando nos apaixonamos. Dá o exemplo de um relacionamento de 50 anos em que o homem, de 79, resolve trocar a mulher por outra de 63, não por uma miúda de 20, por uma mulher de 63 anos.

Não faço ideia o que é um casamento de 50 anos, mas tenho a certeza de que houve muita coisa que foi deixada para trás, para segundo plano, para a próxima vida, para se conseguir manter um casamento de 50 anos. E é aqui que a coisa me pega.

Eu, que sou mulher, o mais provável é que fizesse o “sacrifício” de não me embrulhar com o primeiro Adónis que cruzasse o meu caminho num momento de frustração e de desencanto, em nome da lealdade, do compromisso, da escolha que fiz. Tradicionalmente, as mulheres sacrificam-se mais do que os homens, o facto de só terem uma cabeça facilita muito as coisas.

A questão é que uma série de sacrifícios sem a devida recompensa, se são sacrifícios é esperada uma recompensa, que muitas vezes nem sabemos bem qual é, gera frustração. E frustração atrás de frustração gera um ressentimento tramado.

Também não sei o que passou pela cabeça de um senhor de 80 anos para largar um casamento de 50 por um tórrido romance com uma suposta caça-fortunas, mas sei o que leva psicologicamente um homem a fazê-lo, ou uma mulher… É o que aquela pessoa, ou o que projetamos nela, nos faz sentir. E de repente, imagino eu, o homem, ainda por cima escritor, sentiu-se vivo, quando já só esperava a morte. Sentiu-se esperançoso, quando já só pensava que naquela idade, com aquela vida, nada de novo e de excitante poderia acontecer. E, ante essa possibilidade, correu atrás da vida, espelhada numa mulher de 63 anos. E eu percebo-o perfeitamente. E percebo perfeitamente que a mulher tivesse apanhado uma fúria, eventualmente ficado deprimida, inclusive, tivesse querido acabar com a outra logo ali, porque não deve haver pior do que estar descansadinha da vida a achar que vamos ter companhia até morrer e de repente nos vermos sozinhas, sem o companheiro de 50 anos, de tal maneira que nem devemos saber mais quem somos sem ele, que se vai embora para maratonas de diversão e loucura, enquanto nós continuamos a ver a novela de chinelos velhos e roupão pouco sexy, cheias de dores nas cruzes e as pernas para cima por causa das varizes.

Por outro lado ainda, se formos a pensar o que aquela projeção quer dizer, ou ficarmos a elaborar a cada vez que vem um estímulo de fora, não vivemos, apenas intelectualizamos, na melhor das hipóteses. Na pior, acumulamos mais uma frustração nas costas.

Isto fez-me lembrar uma situação numa série que gosto muito, Mistresses, e cuja temporada, a melhor de todas, acaba esta semana, em que Joss, no final da última temporada, se embrulha com Harry, que é ex-marido da irmã dela, o que gerou um sururu do caneco no facebook da série, em que umas idiotas de umas americanas com demasiada frustração acumulada acusavam o resto das pessoas de serem umas filhasdaputa por acharem bem que Joss se tivesse apaixonado por Harry, porque isso não se faz com o marido da nossa irmã. Irmã essa, Savy, que tinha traído Harry com um colega do escritório e com quem já nem sequer estava, por ter escolhido precisamente o colega do escritório, de quem estava grávida, dizendo isso mesmo a Harry. Sendo que, lá está, ninguém achou bem, a questão não é essa, a questão é que nós não escolhemos por quem nos apaixonamos, eu por acaso até já escolhi, mas não é o que acontece na maioria das vezes, somos surpreendidos, e não controlamos sentimentos, muito menos paixões. Vão tentar controlar uma obsessão e venham cá dizer-me se conseguiram, que eu mando-vos para um laboratório para fazerem experiências com o vosso cérebro.

É verdade que, antes de nos envolvermos, nunca saberemos se é apenas um flash do momento ou se é o amor da nossa vida, no caso de Joss e Harry. E se for e nos tivermos prendido à ética e à moral, perdendo a grande oportunidade da nossa vida, a de viver uma paixão tórrida e um amor divertido? Vou-vos dizer, Harry é praticamente irresistível… E que irmã é essa que acha que tem direito de propriedade sobre outra pessoa só por ter sido casada com ela, sem moral alguma para arrotar postas de pescada, ainda por cima? E o que é de nós se estivermos à espera que toda a gente aprove tudo o que fazemos, deixando de o fazer se alguém tiver alguma coisa contra, como se de alguma forma tivesse esse direito?

A questão, caro Ivan, é que a ética está no campo da razão e a paixão no campo da emoção. O desejo no campo do instinto, e toda a gente sabe como os instintos são urgentes…, e uma relação de 50 anos, bem, uma relação de 50 anos nem sei onde está, em que pé se sustem, e se é válido ou não…

E ao escolhermos não atropelar os sentimentos dos outros, não estamos a passar por cima dos nossos, a dar-lhes menos importância?

Tudo isto para dizer que se estivesse no lugar do homem entendê-lo-ia perfeitamente, talvez não tivesse a coragem que ele teve, porque também é preciso coragem para trair, como também o é para segurar o pinto nas calças e ir para casa resolver o que houver para ser resolvido com a nossa própria mulher, e se estivesse no lugar da mulher acho que o matava, ou, pelo menos, culpá-lo-ia por todos os Adónis com quem não me embrulhei, só deus sabe como não perdoo uma traição…, por tudo o que não fiz, em nome do nosso casamento, da vida que ambos escolhemos, de tudo, caramba… E também não sei até que ponto isto será justo… Porque a responsabilidade de fazer e não fazer é de cada um, porque a escolha é de cada um…

Entendo as duas posições, Ivan, não escolho nenhuma, e, em ambos os casos, é com a nossa consciência que teremos sempre de lidar…

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