Livre

Sentido

21/09/2017

Ontem, ia arrumar um livro que tinha acabado de ler e deparei-me com três cujo título incluía a palavra “sentido”. Um trouxe de casa dos meus pais, chama-se o sentido da alma, está mal traduzido, tinha um marcador na segunda página, o meu pai deve ter começado a lê-lo e pô-lo imediatamente de lado. Foi nesse que peguei para ler. O outro, chama-se o sentido da vida humana e foi-me oferecido por um amigo do meu pai. E o terceiro, o sentido do fim, que comprei e li aqui há dias. sentido

Este fim-de-semana, revi um filme de que gosto muito. É baseado num livro do Nick Hornby, é com o Hugh Grant, cujo personagem, para variar, me faz rir do princípio ao fim, sou fã incondicional do Hugo Grande, e é a prova de que os britânicos são os reis disto tudo. Gosto do realismo, da autenticidade, dos europeus, apesar da sensação de que esta minha mania de ver o mundo como gostaria que ele fosse ainda um dia me há de matar. Em contraponto com a plasticidade dos blockbusters de Hollywood, aquela coisa comum às novelas que nos diz que somos ou bonzinhos ou o pior que há no mundo. E da ausência de drama. Do facto de os britânicos conseguirem quase sempre pôr-nos a rir nas piores situações. Não para fugir delas, mas para as aligeirar um bocadinho.

Nos tirar do olho do furacão, dar-nos perspetiva.

Nessa história, o personagem principal vive de direitos de autor de uma música que o pai criou e não faz rigorosamente nada. A vida corre-lhe de feição, não tem chatices, divide o tempo em unidades de meia hora e chega à conclusão que não sabe como as pessoas arranjam tempo para trabalhar, se o dia dele está todo preenchido.

Até ao dia que conhece Marcus. E a mãe.

A vida estava ótima, Will era Ibiza, um homem é sim uma ilha, dizia, não havia chatices de maior, compromisso zero.

Só carecia de sentido, de significado. Era meaningless

O que me tocou particularmente. E ali ficou a ressoar. Dois dias depois, deparei-me com os três títulos na minha estante. Não pode ser coincidência.

No mundo pós-moderno do consumismo desenfreado, da hiperatividade, da esquizofrenia que nos leva a mantermos a cabeça, os braços, as mãos, ocupados o tempo todo sob pena de sermos excomungados, é obrigatório ter objetivos. Para termos por que lutar e bem assim nos mantermos ocupados. Queres sentir-te importante, diz que tens imenso que fazer.

Ando a evitar a expressão: faz sentido, porque também ando a querer evitar racionalizações para poder validar o que sinto, deixando-me apenas ficar com a sensação enquanto critério de avaliação.

Mas não o sentido. Pelo contrário. Cada vez mais quero a sensação do sentido, em detrimento do fazer por fazer, ir por ir, para cumprir um papel, dar vazão à neurose, colmatar uma carência.

Leveza sim, mas com sentido.

Nada de vazio, de relações, projetos, coisas, acontecimentos, momentos cheios de nadas. Nem grandes nem pequenos.

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  • M. Conceiçao Pereira Carvalho 26/09/2017 at 02:46

    “A vida tem que ter um sentido e o meu dia a dia é procurá-lo” escreveu algures Espinosa. Por não ser da ordem da Razão mais difícil se torna apreender-lhe o sentido. Mas será isso importante? O importante é viver e dar à dádiva de tempo que é a vida o devido valor. O tempo nunca é vazio! Mesmo quando não estamos a ser úteis ou nos recusamos a mostrar serviço. Há um quinhão de tempo que resulta de tudo o que se passa à nossa volta e que, seja para nos congratularmos, seja para nos chatearmos, nos sobressaltam o espírito. Os Ingleses são leves por temperamento e porque não são escravos da continuidade que os latinos imprimem aos mais insignificantes eventos. O ‘amanhã’ para eles é de facto um novo dia capaz de trazer um novo sentido

    • Isa 26/09/2017 at 09:39

      Curiosamente, o filme de que falo, e o autor, não poderiam ser mais britânicos… Sentido no sentido de significado, uma coisa que não seja vazia, não tem nada a ver com apego. Nem com razão.

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