Ser criança por umas horas

29/08/2016

O que incomoda e é irresistível nas crianças é o facto de não terem persona. De desconcertarem os paizinhos que se querem educadores perfeitos, de dizerem que não gostam, de não disfarçarem, de não quererem dar um beijo à tia velha com cheiro a naftalina, de chorarem se a isso forem obrigadas. Em suma, de não quererem exatamente o que um adulto não quer mas se acostumou a fingir querer. Deus nos livre de uma criança mal educada, que não obedece. Que não fica quieta e sossegada como se fosse de porcelana. Que ousa não gostar de nós, não achar piada às estupidezes que lhes dizemos e fazemos, de não nutrir particular apreço por ser tratadas como atrasada mental. Uma criança mal educada é uma criança que vai contra ela própria. É isto que nos ensinam, que ir contra as nossas vontades, os nossos desejos, é falta de educação. Que eu também fui educada assim e não morri, mas infernizo a vida de toda a gente e sou uma amargurada do pior, e acho que isso é que é viver decentemente, ser um ser humano digno desse nome. Mas deus me livre de dizerem que os meus filhos são mal educados.

Que não podemos incomodar os outros com os nossos quereres, que só gostam de nós se nos portarmos bem. Portar bem é obedecer, fazer o que nos mandam, mesmo que por um motivo mais que válido não o queiramos fazer, ou comer, ou beber. É como se não tivéssemos quereres, vontades, necessidades, não, as necessidades das crianças são as necessidades dos pais e acabou. Quem é que lhes disse que são seres independentes, com vida própria, vontades próprias, quereres próprios, gostos próprios, necessidades próprias, só deles? Como ousam não ser o que queremos que elas sejam?

Sim, temos de lhes garantir saúde e por isso obrigá-las a comer vegetais e fruta quer queiram quer não, indiscutível. Sim, têm de ser preparadas para o mundo, para o enfrentarem e a ele sobreviverem, nele conviverem, subsistirem, dele comungarem, mas não à custa do sacrifício da sua alma, do seu coração, do seu sangue, não para serem marionetas do sistema. Isso nunca.

Ontem, enquanto saía e não saía do carro, uns miúdos brincavam na rua, estava de costas para eles, não vi qual era o divertimento, mas ouvia deliciada as vozinhas e os risos deles, eram crianças muito pequenas. Já quase a virar-me, ouvi um mais velho perguntar: querem que vos empurre? Os miúdos disseram que não, obrigado, estavam a conseguir safar-se sozinhos. Achei bonito e solicito da parte do mais velho. Quando me virei, vi que eram dois em cima de um skate e que o mais velho insistia em empurrá-los, e fê-lo, olhei para ele e não aguentei, sorri, com os dentes todos. Respondeu com um riso malandro e inocente, de quem tinha conseguido o que queria, uma maldadezinha, os mais novos também se riram, correu tudo bem.

Se me dessem a oportunidade de ser criança e fazer o que quisesse, eu escolhia poder ser má. Não violenta, agressiva, mas má, um bocadinho má, só para saber que posso sê-lo e não sou porque não quero, que faz parte de mim mas não me define, para não me ficar na sombra e me apanhar desprevenida quando não deve, não pode, não é adequado, é desumano.

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