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Ser estrangeiro*

06/07/2013
Aqui há tempos o Tolas escreveu um post em que se irritava um bocadinho contra aqueles programas de TV que mostravam os emigras (presente!) felizes e contentes lá nos países onde moravam. Irritava-o que fossem felizes e exigia que pelo menos um deles dissesse mal do lugar onde estava, qualquer coisa servia. O post estava engraçado, ou não me teria sequer dado ao trabalho de o ler. Crítica sem graça cheira a ressaibo que tresanda, a frustração, e nesses casos só há uma coisa a fazer: chuta que é macumba! Carrega na cruzinha, fecha o bagulho e vai à tua vidinha
Hoje, naquele post da Rita do qual transcrevi partes estava um link para outro blog. Para entender o post fui lá e deparei-me com uma situação de alguém que tinha sido alvo da ignorância de uma alemã, ou lá o que era. 
O que mais custa a quem emigra não são as saudades do bacalhau e do pastel de nata, não é não ver os sobrinhos crescer, e isto custa-me horrores, não saber dos amigos, pouco acompanhar os pais velhinhos, as saudades da cidade mai linda do mundo, as cores do Tejo, a facilidade que é andar em Lisboa, as referências, a perda de contacto, o não acompanhar, a possibilidade da perda de vínculo, que pode ser devastadora, nada, não é nada disso. O que faz com que nem tudo sejam rosas para quem emigra é a adaptação. Ou te adaptas ou vai-te embora. Porque ninguém merece ser infeliz longe dos seus. Se acaso tivesse discernimento no momento, e reconheço que é difícil, era isso que teria respondido à turista alemã – que destratou a blogger que a Rita Maria linkou – e que se enxofrou porque a Sónia a mandou pra fila.
Também é natural ficarmos nervosos num país que não é o nosso, do qual nem sequer falamos a língua, por insegurança, e aí a tendência natural é defendermo-nos, automatica e inconscientemente: na minha terra é que é bom, mesmo que esteja de férias e tenha escolhido aquele país específico para passar uns dias que se querem agradáveis. E 

lá está, ninguém trata mal alguém só por se ser português, chinês, alemão ou neo-zelandês, fá-lo por estar de mal com a vidinha, simples assim, em qualquer lugar do mundo, qualquer povo do mundo. 

A alemã foi apanhada a fazer uma merda, chamada à atenção, toda a gente odeia ser chamada à atenção até aqui surpresa nenhuma, mas, ao que parece, foi pouco humilde e muito exagerada nas suas reações, ofendendo gratuitamente, sendo basicamente uma estúpida. Era isso que lhe respondia, até em estrangeiro, para ela perceber melhor: estás no meu país e aqui há regras; uma delas é esperar em fila para ser atendido. Respeita, adapta-te ou vai à zara da tua terra, que deve ser mais barato. Ou seja: adapta-te ou baza. Simples assim. A partir daí, orelhas moucas, impassibilidade e firmeza em chegar-me à frente para ser atendida antes dela, isso seria ponto de honra.

Pior do que termos de nos adaptar – é tudo muito bonito quando é novidade, ou tudo muito horrível quando não percebemos os motivos pelos quais as coisas funcionam como funcionam e nesse aspeto a mínima coisa pode irritar-nos, em qualquer lugar do mundo, na nossa terra inclusive – é a perda de identidade, aliada precisamente à necessidade de adaptação.

Isso, meus amigos, apesar de não me tirar o sono, é o pior de tudo, a sensação de não ser de lugar nenhum o que, para qualquer ser humano com necessidade de pertença, ou seja, todos nós, é que é o diabo. Saberes perfeitamente qual é a tua nacionalidade, não te identificares com muita coisa que fez, e continua a fazer, parte de ti, chocar-te o comportamento, as atitudes, as reações das pessoas, apesar de também serem tuas, mas das quais tiveste quase que te esquecer por uma questão de sobrevivência. 

Aqui, como em qualquer lugar do mundo que não seja a nossa terra, as coisas não funcionam simplesmente da mesma forma; a abordagem é necessariamente outra e confesso que é confrangedora a atitude de alguns portugueses aqui, que conseguem irritar-me imenso, com uma atitude prepotente que, claro, não os leva a lugar nenhum, por criticarem tudo e todos só porque não são iguais a si, porque a vida não lhes corre de feição, por estarem aqui contrariados, sei lá. O que pode mudar num segundo se algum português for destratado à minha frente só porque, aparentemente, é português. Aí a leoa que há em mim mostra os dentes; morar fora também é isto, a nossa nacionalidade é também a nossa identidade, e aí é o diabo. Nós podemos criticar e dizer mal, mas só nós, que não venha porra de estrangeiro nenhum falar mal da minha terra, é que nem falar mal da mãe, da família, só eu posso…
Então, querido Tolas, é isso, perda de identidade, de referências, falta de gente que te entenda perfeitamente, que te apoie sem te julgar. Tenho a sorte de contar com o núcleo rico da novela para isso, acho que ela sente o mesmo, mas tem dias que não é fácil. Sensação de isolamento absoluta, por mais que estejas rodeado de gente, dos teus inclusive. A falta de um ambiente familiar em que o Natal é a máxima expressão, goste-se ou não se goste do mesmo, é simplesmente horrível. Queres pior que isto?
*Já elocubrei várias vezes no TJ sobre a condição de emigra, a propósito de variadíssimas situações, a vez em que me saiu melhor foi esta.

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  • Isa 06/07/2013 at 05:02

    Vale um comentário para vos dizer – a vocês portugueses que não sabem o que é viver noutro país, garanto que é diferente de ir de férias seja em que condições forem – que não fazem ideia de como vocês mesmos tratam os emigrantes aí, principalmente os que vêm de países supostamente mais pobres ou culturalmente mais diferentes e para isso basta que não sejam europeus ou ocidentais em geral.

  • José María Souza Costa 06/07/2013 at 08:41

    CONVITE
    Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
    Eu também tenho um, só que muito simples.
    Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
    Para mim, o que vai

  • margarida 06/07/2013 at 08:41

    Verdade. Já cheguei a dizer a uma pessoa da minha família "a maneira como falas dos emigrantes vindos de leste pode ser igual à maneira que falam de mim na Suécia. Se tu achas que tenho valor aqui (em Portugal) também tenho lá, o mesmo com os emigrantes em Portugal". Ah mas é diferente!.. Pois, porque a escala que nos mede a nós não é usada de igual maneira nos outros.

    • Isa 06/07/2013 at 13:16

      é diferente pq nao é com ela… :)

  • Diana 06/07/2013 at 13:00

    NRDN presente! Fogo, que seria de nós, uma sem a outra? Abençoada internet, é o que te digo. :)
    Mas lá está, acho que uma grande parte da dificuldade da emigração é o termos que nos encarar. Assim, a cru. E muitas vezes não gostarmos do que vemos.
    Não é fácil emigrar e acho que quanto mais tempo passamos no outro país, mais difícil fica. Chega a um ponto que as desculpas para as

    • Isa 06/07/2013 at 13:17

      Sim, descobrimos coisas boas sobre nós e outras nem tanto. Nao temos mesmo como fugir.
      e sim :D tou a entrar na fase em que já nao é tudo mto bonito e eles sao assim e pronto :D daí que ter um compatriota pra desopilar é ótemo ;)

  • Joana 06/07/2013 at 17:45

    "Isso, meus amigos, apesar de não me tirar o sono, é o pior de tudo, a sensação de não ser de lugar nenhum o que, para qualquer ser humano com necessidade de pertença, ou seja, todos nós, é que é o diabo. Saberes perfeitamente qual é a tua nacionalidade, não te identificares com muita coisa que fez, e continua a fazer, parte de ti, chocar-te o comportamento, as atitudes, as reações das

    • Isa 06/07/2013 at 19:03

      exato :D em pt falo "brasileiro" aqui sou a portuguesa, é o diabo… e o pior é que nem me apercebo mais do que digo, só qd as pessoas reagem… e é mto louco qd vou daqui pra lá falo mais pausado, mais com o tom daqui. qd venho de lá volto totalmente portuga e o povo daqui diz: isa, mais devagar, tou precisando de legenda já :D e eu raramente dou pelas diferenças… :s

  • João Pedro Lopes 17/07/2013 at 20:10

    isto é tudo tão mas tão verdade :) ***

    • Isa 18/07/2013 at 00:45

      :***

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