Sex/Life

26/06/2021

Nunca sigo as “sugestões para ver agora”, da Netflix. Algum dia haveria de ser, aconteceu precisamente com Sex/Life.

O título é estúpido, ainda que, numa análise superficial, retrate a série.

No entanto, sabemos que o sexo, tal como tantos outros símbolos de poder e satisfação, é apenas isso, um símbolo. Algo maior se esconde por detrás dessa necessidade, desse desejo, dessa fonte de prazer.

O título Sex/Life implica uma escolha, abdicar de um em prol do outro.

Tão estúpido quando impraticável.

Também é estúpido porque a vida (Life) não é necessariamente o que a protagonista vive. Ainda que essa seja a escolha da grande maioria da população: casar, ter filhos, “assentar”. Como se fossemos todos iguais, quiséssemos as mesmas coisas. Como se esse fosse o desejo e a vontade de todos quantos moram na nossa cabeça. Se, com essa “estabilidade”, todas as outras vozes se calassem, as vontades se aplacassem, os desejos se silenciassem, conseguíssemos matar partes de nós.

Tempos houve em que as mulheres não tinham escolha. Sem pagarem um preço trilhardário por isso, a sua reputação fosse arruinada e a sua vida destruída. Hoje têm, ainda que o preço continue a ser alto… O que muitas não têm é essa coragem, essa força, essa determinação, essa convicção.

A vida é emoção e razão, cabeça e coração, aventura e calmaria, tormenta e bonança.

Comecei a ver ontem à noite, por mero acaso, e só descansei quando acabei, hoje, por volta da hora de almoço.

É viciante, não só pelo sexo incrível.

Todo voltado para o prazer feminino. Aliás, adorei essa parte, uma série protagonizada por uma mulher, de carne e osso, com desejos, fantasias, vontades, que não morrem depois de ter tido filhos.

Também não o é por causa de Brad, o rebelde de sorriso irresistível e sotaque quase perfeito.

Mas por retratar tão bem o tormento psíquico, e a falta de controlo a ele associada, sempre que o passado nos invade o presente e ameaça a vida de todos os dias, chata, sem emoção, aventura, arrepio na espinha e brilho nos olhos.

A vida funcional, segura, mas nada criativa.

Atrevo-me a dizer que sem criação não há vida, não uma digna desse nome, pelo menos.

Sonhadora e idealista, só ando aqui pela magia.

E quem não teve, ou tem, fantasmas do passado a visitá-la no presente, doidos para que os façamos sentir vivos outra vez, na segurança do marasmo do casamento de 20 anos e dos filhos adolescentes. Garantida a segurança e a estabilidade, por vezes, nem um trabalho novo, uma recolocação, uma mudança radical de vida e ainda mais poder satisfazem esse desejo tão humano de nos sentirmos vivos, cheios de energia, heróis, como se tivéssemos 30 anos outra vez. Ou 20…

Sem o corpo perfeito, muito menos imaculado.

Mesmo que, aos 50, as nossas aventuras tenham necessariamente de ser outras, que vamos descobrindo ao longo do caminho, ainda que a vontade seja sempre a mesma, a de nos sentirmos vivos.

Sentimo-nos vivos de formas diferentes, é para isso que serve o autoconhecimento, para sabermos exatamente o que nos faz sentir vivos sem nos destruir.

A série é tão boa, retrata tão bem o dilema, que vou vê-la outra vez, já de seguida.

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