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Shameless*

02/08/2014

Há um motivo pelo qual escondemos as nossas vergonhas. Sejam elas as que escolhemos ou as que nos são impostas pelo coletivo, familiar ou social. Que, no caso português, apesar de Pessoa e Camões – e de quem é tomado pelo patriarcal em geral, esteja em que canto do mundo estiver – incluem sentimentos, vulnerabilidades, fragilidades.

Muitas mulheres vêem no seu corpo o alvo das suas vergonhas. No entanto, não é só de vergonhas físicas que falamos aqui, não podemos desconsiderar conteúdos psíquicos “vergonhosos”, postos a nu por atos, palavras e omissões. Nem mesmo situações reais, vividas, “vergonhosas”.

Por tais vergonhas, venham revestidas da forma que for, não corresponderem à ideia que temos de nós, que queremos que tenham de nós, que esperam de nós, que o mundo coletivo nos impõe. Escondemos as nossas vergonhas e fingimos que não existem.

E é por isso que a vergonha pública é um horror para o visado, a não ser que se trate de um psicopata, porque é, sozinho, alvo das projeções de todas as vergonhas do universo, que, por estarem escondidas, tomam proporções monstruosas. Uma vergonha…

Se não nos mata, e é bem possível que nos mate, por não mais podermos escapar dessa sombra, está aí o mundo inteiro para no-la recordar, torna-nos mais fortes, por não mais corrermos o risco de ser tomados por ela, por estar aglutinada na consciência. É o conhecimento que nos torna mais fortes.

Haverá sempre alguém que não alinhará no estigma. Não sem ao mesmo tempo verificar se aquela vergonha está identificada com a personalidade total, o todo da identidade, o que se revelará num comportamento recorrente, se foi apenas um momento, estando longe de definir a pessoa. No fundo, é descobrir no que ela se tornou, depois das vergonhas expostas.

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