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Síndrome judaico-cristão e deuses gregos

03/10/2012
Estive 4 dias na praia, deserta, num Guarujá vazio, paradisíaco de tão vazio. Tenho uma certa alergia a pessoas e fobia de multidões. As pessoas sofrem de carência de contacto físico. Numa praia enorme, sem ninguém, dois grupos diferentes resolvem sentar-se a uma distância pouco higiénica de mim e isso irrita-me muito. Apesar disso, o fim-de-semana foi muito bom, muito tranquilo, com caminhadas várias pela praia afora, várias praias do litoral paulista no curriculum, com muito vento, mas ainda deu pra dar um mergulho regenerador no mar, que estava verde e límpido, como já vos disse. Vi um gajo a fazer kyte surf que benza deus. Havia vários surfistas, divaguei um bocadinho sobre gajos que fazem desportos na água e que vivem no mar, sobre os seus corpos esculturais, os seus sorrisos permanentes e os seus tons morenos. De resto, não fiz ponta de corno, nem li, sequer. Apenas deixei a minha cabeça voar. Durante esses quatro dias, desenvolvi um plano maquiavélico e perfeito para acabar de vez com esta história de pedidos de visto: casar-me. Na verdade já tinha pensado nisso, mas desta vez fi-lo com mais propriedade. O plano é muito bom, nada convencional, mas foi traçado com muito amor. É perfeito, ele é meu amigo muy querido, independente, sossegadinho, super na dele, bem educadinho, dá para apresentar à família, lindo, inteligente, bom coração, humanista e emocionalmente f*dido, como eu. Incapaz de fazer mal a uma mosca e de se aproveitar da minha condição de europeia para queimar o meu filme junto das autoridades competentes. Teríamos apenas de morar o máximo de tempo possível juntos, condição inegociável. Pode ser que nos apaixonemos no processo. O plano é tão perfeito que me permitiria morar uns meses na praia, ele não mora longe do mar nem morto, e outros em SP. 
Fiz vários outros planos, que aparecem sempre já concluídos, sem ter de passar pelo processo de os desenvolver. Só imagino a coisa pronta, nunca o trabalho que me vai dar, muito menos o quanto me vai custar. E talvez seja por isso que não chego a lado nenhum. Decidi inclusive que talvez vá passar os meus anos na praia, é daqueles anos em que não me apetece fazer rigorosamente nada, acontece imenso, e quando é assim gosto de viajar, para não ter obrigações de ter de comemorar e fingir que estou feliz por fazer anos. Não gosto particularmente de fazer anos, não me lembro de em algum ano ter gostado, nem em criança. Acho que era por causa das velas e de ter toda a gente a olhar pra mim. Também acho que não mereço fazer anos, ter um dia especial só pra mim, em que toda a gente me mima e ninguém me chateia. Talvez ache que também não mereço ser mimada e tal. E quando não me mimam ressinto-me. Constato agora que talvez também seja meio esquizofrénica…
Ontem vim a conduzir até São Paulo, tenho tantas saudades de conduzir…  Chego aqui e a ideia não me parece tão boa, casar-me, quero dizer. O mundo racional acaba comigo, não me deixa viver as minhas fantasias em paz, puxa-me muito para o lado convencional da vida, que não é o meu, apesar de ter enraizado que a vida é assim, como a de toda a gente, apesar de não ser toda a gente e de não me encaixar em nenhum modelo convencional de vida, nem um. Moraria facilmente numa pousada, numa ilha, por exemplo, com o café da manhã pronto na mesa, num espaço com vista pro mar. E alguém que cozinhasse pros meus hóspedes e pra mim. Arranjava um gerente e o gajo que cuidasse dessas merdas mundanas de fornecedores, empregados e contas pra pagar, enquanto eu escrevia na varandinha com vista pro mar. Sem luxos, não preciso de luxos, nem de tralha, nem de filhos nem de animais domésticos, só de livros, filmes e de um computador ligado à net, com banda larga.
Como estou meio ressacada e deprimida por ter voltado à vida mundana, talvez tenha chegado à conclusão de que acho que não mereço ser feliz, viver do que gosto e que o deus grego com quem me proponho casar, que inclusive já falou nisso duas vezes, talvez não me queira nem aos planos que tracei para a vida dele. Os planos são muito bons e é com toda a moléstia que digo que não encontrará outra como eu, que o deixe livre, leve e solto por esse mundo de meu deus. 
Já me livrei de muita coisa judaico-cristã, mas parece que esta tendência pro sofrimento e pro sacrifício teima em não me largar, parece que se fixou que nem lapa à minha cabeça e me diz que só no sofrimento atingiremos a plenitude. E o pior é que não acredito em nada disto, mas parece que não consigo sair daqui. Também sofro de megalomania e acho que isso me atrapalha muito a vida. 

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  • Tiago Koyano 03/10/2012 at 14:42

    Essa vida de praia é boa quando não passa de uma semana. A gente sonha todos os sonhos do mundo e depois se cansa deles. É ao lado de cá que estamos a realizá-los. Ainda que aos trancos e barrancos. De qualquer forma, bem vinda de volta. ;)

    • Isa 03/10/2012 at 15:15

      morei três meses no morro de são paulo e nao me cansei :)
      obrigada
      bjo

  • Anita Garcia 03/10/2012 at 15:14

    Traçar planos, assentes em sonhos, é tão bom.
    Parvo é achar que não se é digno de sonhar e alcançar os objectivos que poderá acabar com o sofrimento e o sentimento de sacrifício. Afinal anda-se cá a fazer o quê??? Decerto que não é só para isto!

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