Livre

T-shirts pretas e Jeans

06/07/2017

Durante a adolescência e até ao início da idade adulta, usei roupas largas por me incomodarem os olhares gulosos de homens feitos. Acreditava, na minha inocência, que quem gostasse de mim haveria de ser pela minha brilhante cabeça e não pelo facto de ter nascido com ancas, mamas e rabo. Consegui o que queria, passar entre os pingos da chuva e não dar muito nas vistas.

Todas as vítimas de abuso e assédio o fazem

Por ter maior dificuldade em separar sentimento de emoção de relacionamento de desejo, a condição feminina cai na triste falácia de negar que também o sente. Desejo esse despertado por combinações várias como uma t-shirt preta e um par de jeans numas pernas jeitosas, morenas e boas de agarrar. Por isso se incomoda um bocado de ser objeto de desejo.desejo

E anda aí aos gritos a tentar controlar meio mundo

Se é verdade que “o desejo é o que nos come vivos e nos deixa à fome”, e que é muito melhor a combinação: amor, sentimento, cumplicidade, desejo, não invalida que o desejo seja uma coisa má ou passível de ser desprezada.

Sequer pecado…

O desejo, e respetiva consumação, pode fazer maravilhas pela humanidade. Deve haver poucas sensações mais agradáveis e sinais mais evidentes de que estamos vivos do que o desejo que nos toma e nos impele a ir por aí fora. Não fossem as convenções sociais e o nosso corpo não conseguir corresponder ao ímpeto cerebral e ao instinto. Nos casos em que temos vontade de matar alguém é bom, nos casos em que temos vontade de coiso é mau.

Não nego que é desagradável estar a falar a sério com um homem e o sentir fixar o olhar onde não é suposto, por o propósito ser outro. Mas não me incomoda como já me incomodou que, noutro contexto, o sinta. É talvez o único tipo de tensão que aguento, aquela que antecede o prazer, levezinha, de preferência.

Acho estimulante, divertida, até.

Esta negação do desejo há de ter diretamente a ver também com a relação que as mulheres têm com o próprio corpo. Ou o desprezam, considerando-o um suporte de cabeça, maltratando-o de diversas formas. Ou usando-o para determinados fins, que é uma forma de o mal tratar, ainda que, olhando à distância, pareça irrepreensível.

É por isso que as feministas mais militantes são muito mais machistas e masculinas do que querem acreditar. É um pensamento masculino a priorização da cabeça, da inteligência, da lógica, em detrimento do sentimento, da emoção. É uma negação absoluta e uma violência contra a mulher o desprezo pelo feminino emocional, receptivo, passivo, diferente de submisso.

Menos Hera e mais Afrodite, por favor.

E esse pouco à vontade torna muitas vezes absolutamente confrangedora a forma como as mulheres falam de sexo. Por falarem como homens. De um jeito javardo. Como nenhum homem que se preze fala na presença de uma mulher, independentemente de o fazerem entre eles. Sem conexão alguma com a condição feminina, que vê e sente o sexo de uma maneira totalmente diferente, muito mais a ver consigo. Que faz que as afaste ainda mais do objetivo, que é curtir a coisa sem culpa, apego, medo ou constrangimentos de maior. E as desidentifique entre si.

Ou falam de sexo e desejo de uma forma técnica, lógica, racional, que lhe tira a piada toda. O sexo, o desejo, a vontade é tudo menos racional. É passional, animal até. Tem de haver emoção, pernas a tremer, borboletas na cabeça, fogo nos olhos. Alguma atrapalhação, até… Ou não tem piada nenhuma…

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  • Joca 07/07/2017 at 10:53

    Fazem falta (verdadeiras) feministas como tu!

    • Isa 07/07/2017 at 12:07

      <3 sabes que me lembrei de ti várias vezes enquanto escrevia o texto, a propósito da falta de jeito generalizada para se falar de sexo de forma convincente sem javardice :D Bjos, cheers

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