Livre

Talvez troque o sexy pelo jogo do amor

31/10/2015

Sou pessoa de uma coisa só. Um homem, um amigo, ou dois, de cada vez. De uma marca, de roupa, de cremes, de comida, de café. Sou pessoa de uma cor só, de um autor, de um realizador, de um ator, de uma voz, de um ritmo, de um tipo, de um estilo, de um tema só, um interesse só. De uma atividade só. E dos respetivos raios de ação, elos de ligação. De cada vez. Sou de paixões, de drive, de entusiasmo, do momento. De corpo e de alma, intensamente.

Sou muito Afrodite nisso, é bom enquanto dura, enquanto me satisfaz, enquanto o símbolo se materializa, me dá alento, me convence, me põe a sorrir, a cantar, me faz sentir viva, me faz sentido, emocionalmente, sempre. Quando isso acontece, sou fiel até ao osso, mesmo quando não sou correspondida, acolhida, mas nesse caso a minha participação é mais discreta, mais comigo, mais para dentro, e dura pouco… Aprendi que quando assim é, não estou ali a fazer nada, apenas perco o meu tempo, me desfoco com as manobras de diversão que o meu predador psíquico arma para me distrair, me desviar do meu propósito maior. Caso contrário, sou até esgotar, até ter usufruído de tudo o que me pode proporcionar, me levar a crescer, a andar para a frente, a resolver, a conhecer. Até a minha mente consciente absorver, elaborar, integrar o que quer que seja que o meu inconsciente materializa em coisas, materiais e imateriais, experiências, pessoas, temas, antes de começar a pensar nelas e enquanto não se firmam na minha consciência, para sempre. Confirmando que é meu, é pessoal e intransmissível, é essência, e não um momento psíquico específico, e nada nem ninguém mo conseguirá tirar.

E tudo isto, embora não pareça às consciências exclusivamente racionais, é perfeitamente compatível com a minha necessidade de novidade, a minha fuga à rotina, aos dias sempre iguais, à morrinha que me mata aos poucos. A minha atração pela vida, pelo exotismo, pelo diferente, desde que não me agrida, desde que lhe veja beleza, encanto, desde que me toque profundamente. Tudo o que é superficial, banal, convencional não me interessa. No entanto, sou completamente focada, não é porque sai isto e aquilo que vou a correr experimentar, comprar, ver. Não, sou fiel às minhas paixões, é preciso ser muito mais do que novo para me atrair, me fazer voar ao seu encontro.

Já tentei escolher outras marcas, outros produtos, outras cores, outros cheiros. É sempre, sempre dinheiro deitado à rua, sempre, enquanto a experiência anterior não se esgotou. Tudo o resto, e todos os outros, me parecem sem graça, sem vida, sem prazer, vazios, de tudo. Também já tentei voltar ao que me fez feliz, em momentos em que não faço ideia do que fazer, perda de tempo, pura e dura, acabo num tédio de morte, impaciente até aos cabelos. Também não gosto de acumular, o que se acumula, estraga-se. O meu espírito nómada contribuiu muito para isso, fez-me assim. Aprendi a largar tudo quanto não uso, não me faz falta, não me identifico, não me traz nada de novo, não me alimenta, o intelecto, a alma, o corpo, o espírito, a fome e acima de tudo a sede.

É a minha mente inconsciente que me desafia, é ela que manda, que dita as regras, eu limito-me a controlá-la quando posso, para que não acabemos todos mortos.

Sou pessoa de uma coisa só, de cada vez, por isso, também sou pessoa de um cheiro só, acho um desperdício deixá-los a perecer nos armários, porque nem tempo nem lembrança tenho para os sentir. Quando muito, alterno entre um e outro no inverno e no verão, acho que só o fiz uma vez e nem sequer fui coerente. Usava o fresquinho de dia, enquanto estava calor, e à noite voltava ao de sempre.

Durante anos fui fiel ao Calvin, depois troquei-o pela Carolina. Hoje talvez seja o dia em que deixarei o Sexy para quem o quiser agarrar, estiver dele precisado. Não porque tenha cansado de ser sexy, como diria a outra, mas porque ser sexy me parece pouco, já não me chega, e agora seja o tempo de me dedicar de corpo, alma e coração, ao jogo do amor, graças ao diabo das amostras que nos dão nas perfumarias quando lá gastamos pequenas fortunas.

Até sempre, Carolina, fomos muito felizes juntas. Olá Kenzo, meu novo amor, sê bem-vindo e fica o tempo que quisermos.

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  • Camila 01/11/2015 at 02:23

    kkkkkkk adorei o úlitmo parágrafo, genial….

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