Uncategorized

Tempos modernos

01/08/2005

Os aeroportos nunca são espaços estáticos, apesar da natureza da palavra. Há um movimento constante de pessoas de lá para cá, de cá para lá ou sempre lá.

É relativamente fácil perceber quem viaja em negócios e quem o faz por lazer. O entusiasmo é muito ou nulo. Os sorrisos e as caras fechadas não enganam. Os fatos e gravatas e os computadores portáteis denunciam um mundo dos negócios cada vez mais pequeno. As pranchas de surf, os skis, as caixas dos instrumentos ou a malinha de cabine, as botas pesadonas ou as havaianas nos pés denunciam vidas que poderiam bem ser a sua.

E este, de onde será? Vai para onde? Vem de onde? Qual será a sua história?

Desde sempre gostara de aeroportos por significarem o início de qualquer coisa. Depois de horas e horas passadas em aeroportos a observar pessoas dos quatro cantos do mundo, habituara-se a construir histórias. Observar as pessoas é como qualquer outro passatempo. Qual exercício prático, quanto mais observava mais coisas descobria: a vida daquele senhor fazia-lhe todo o sentido, a história daquela senhora já lhe era familiar. Ou pelo menos pensava que sim. A verdade é irrelevante se do que se trata é de usar a imaginação e construir histórias a partir daquele fato escuro, daquele carrinho de bebé, daquele músico solitário ou daquela família. Se não são verdadeiras são boas histórias, sempre com finais felizes, que nunca acabam, encandeando-se umas nas outras porque os personagens não param de surgir. Vão e vêm a toda a hora, todos os dias da semana.

Ao mesmo tempo sente sempre uma nostalgia durante as horas que passa em aeroportos por motivos profissionais, sem forçosamente ir para lado nenhum, apenas para esperar. A vontade é sempre de partir, nunca de voltar. Não gosta das partidas dos outros, fica um vazio, os abraços são demorados demais é sofrido e muito doído. O trânsito trá-la sempre de volta à realidade: o vazio da partida acaba por ser rapidamente ofuscado pela rotina dos dias que resultam iguais. Já nas chegadas tudo se passa ao contrário. Os sorrisos invadem os rostos. A ansiedade revela-se nos olhos mas o sorriso nunca se desfaz porque há sempre alguém à nossa espera. O entusiasmo da chegada, também esse, acaba por esmorecer, dominado pelo dia-a-dia de realidades que se imaginam para sempre inalteradas.

A sua natureza romântica, ou talvez demasiado influenciada por Hollywood, sempre imaginara um encontro num aeroporto. Dois olhares que se cruzam, que se prendem um no outro, sem se largarem durante o espaço de tempo permitido por lei para as pessoas que não se conhecem e cujos olhares se cruzam por um motivo qualquer, significando muito mais do que uma simples atracção, aquela sensação: eu sei que nunca te vi mas foi nesta vida porque noutra com certeza vivemos uma experiência qualquer. Esse mesmo. Esse olhar que nenhum dos dois afasta mas que pede: por favor pára de me olhar assim que já não sei onde me hei-de meter. Uma timidez natural de quem se sente balançado e a capacidade de avançar de quem sente que não pode perder de vista o potencial amor de uma vida. Não imaginava como seria a abordagem exactamente mas não poderia nunca ser banal. A conversa encadear-se-ia, crescia um misto de admiração, uma sensação de simetria de almas e adivinhar-se-ia uma cumplicidade já que essa só se consegue depois de muita convivência, pelo menos em teoria, e a separação tornar-se-ia difícil. Porque temos sempre de voltar para as nossas vidas, na nossa terra. As promessas de sempre, de ambas as partes, não levariam a lado nenhum e eles sabê-lo-iam.

Vai ter de ficar para outra vida, pensa a meia hora de aterrar. Porque nesta, na sua história, o aeroporto serve de local de encontro previamente marcado e não do acaso. Meses de espera, datas alteradas, ansiedades proteladas para que a disponibilidade fosse total.

Resolvera-se finalmente ir em busca de um amor encontrado. Quantas pessoas neste avião viajarão pelo mesmo motivo?

Promessas de amor eterno, a fotografia a jeito, ao alcance da mão, apesar de não precisar de a olhar mais vez nenhuma. Os traços estavam mais do que decorados. A cor da pele do mestiço que a esperava e o tom exacto da cor dos olhos do seu amor não lhe saíam do pensamento. Ida estratégica à casa de banho. Não verás vestígios do voo. Estarei linda quando me vires.

As malas são muitas, quem sabe para uma vida inteira. Os corredores, as passadeiras rolantes não haviam meio de se tornar mais curtos, pelo contrário, apenas mais longos, intermináveis, até à porta onde toda a gente espera.

T-shirt vermelha e calças jeans, t-shirt vermelha e calças jeans. Não, nenhum daqueles rostos sorridentes, expectantes, inalterados lhe era familiar.

O telemóvel apita. Sinal de sms. Bem-vindo à rede… Deseja apagar a mensagem, sim. Mais mensagens? Caixa de mensagens vazia. OK, deves estar a chegar.

As horas passam, a ansiedade aumenta. Não vou sair daqui, não vá desencontrarmo-nos. Não é possível aceder ao número de telemóvel que marcou. Por favor, tente mais tarde. Não há metro directo para este aeroporto. Na volta está sem bateria, no meio do trânsito. Qualquer coisa serve para não ter de encarar o óbvio.

Não tem e-mails novos. Nos últimos tempos era através da Internet que sonhava, era por ela que corria para casa, para o MSN, para o e-mail, para o Skype e a Web Cam, na expectativa de mais umas horas na companhia do seu amor.

Que chatice… Nunca mais… Serviço de informações: não se importa dava-me o número de telefone da seguinte morada: … Essa morada não tem número de telefone.

Deixa cair o auscultador, os olhos enchem-se de lágrimas. Procura um café que lhe aqueça o espírito gelado ao mesmo tempo que revê uma história de amor, que nunca existiu senão na sua cabeça, enquanto pensa no que fazer.

As lágrimas não param de correr e nem repara que um homem, do outro lado do bar, a olha fixamente, com aquele olhar que se ao menos ela conseguisse ver logo pensaria: pára, pára de me olhar assim que já não sei onde me hei-de meter…

You Might Also Like

error: Content is protected !!