Selfish Love

That Don’t Impress Me Much*

29/04/2013

Fiz-te um presente. E mandei-to, pelo correio, à moda antiga. Não te avisei, não te dei o número de rastreamento, confio que te chegue antes mesmo de partires, mais uma vez. Quero que te surpreenda, quero estar contigo, ainda que à distância, em mais uma nova jornada, na esperança que te seja profícua. Quero que leves esse carinho contigo, nesse gesto meu, de coração, no coração. 
Fiz-te um presente, com a dedicação e a paciência infinita dos que amam além do ego. E se, por momentos, me quis travar os ímpetos, desta vez não deixei que se sobrepusesse a tudo o resto. Foi tão fácil… Não me preocupei com nada, com o que penso de mim, com o que pensas de mim, com o que os outros vão pensar. Não pensei no meu papel, na minha postura, na minha posição de maior ou menor fragilidade, em nada, em nada. É teu, feito para ti, é contigo que tem de ficar.
Fiz-te um presente, todo, todo hand-made. Ficou lindo, usei a tua linguagem, as palavras dos outros, uma de cada vez, a minha criatividade, a minha vontade, a minha disponibilidade, os serviços alheios, para que ficasse perfeito. Ficou quase, quase. Queria manter o mistério, deixá-lo num compartimento secreto, para que o abrisses, curioso, e o fosses descobrindo, aos poucos, conquistando terreno, aqui e ali, que nem uma criança com um brinquedo novo, por montar, na noite de Natal. Para não correr o risco de te chegar sem sentido, preferi escondê-lo, mas pouco, não ficou exatamente como queria, apenas num pormenor, mas espero que o efeito não se perca.
Fiz-te um presente e, no dia em que o pus no correio, saltei fora. Nesse dia tive todas as certezas de que não te queria mais. Vi-te com clareza, percebi por que te moves, como te moves, o que faltou, o que falta. E o que falta, afinal, é tudo. O que temos é tão, tão pouco, sabes? É apenas o que satisfaz o coletivo, o externo, são apenas os prazeres imediatos, mas e tudo o resto? Tudo o resto que faz de mim eu, de ti tu e de nós, nós? De verdade, o que faz de nós de verdade? Não há um nós, nunca houve. Nunca…
Fiz-te um presente e, ainda assim, mandei-to, por conseguir não transformar um sentimento bonito em raiva, por conseguir não te julgar, por não permitir que a frustração tomasse conta de mim, por deixar que o amor verdadeiro não se esvaísse. É por isso que se chama amor verdadeiro, talvez incondicional, porque não depende, não acaba, com a (não) ação do outro. Nem com a nossa…
Fiz-te um presente e mandei-to, um presente que não se esvai com o tempo, que não se consome até se extinguir, que não passa de moda, que é eterno. 
Fiz-te o presente mais lindo do mundo, com carinho, com paciência, dedicação e esmero, com cuidado, com amor. Que, espero, te acompanhe, sempre, que te lembre, que te sirva de sinal de alarme, que te centre, que te traga de volta para o que realmente importa, o que fica quando tudo à nossa volta cai, as nossas referências externas, internas, a ideia que construímos de nós, o que erguemos e o que deixámos cair, que fique o que realmente importa, o sentimento, o amor, o verdadeiro, o verdadeiro… Para sempre.
* @Selfish Love, 18 Fev. 13

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