The Boring Type

21/08/2021

Nas últimas semanas, estive entretida a ver uma série chamada The Bold Type. The Boring Type seria um título mais apropriado. Já que não passa de propaganda, good old American perfection bullshit, para iludir totós.

Bem sei que a minha geração não é exemplo.

Educar pessoas para não gostarem de si mesmas é receita para o desastre. Educar mulheres para acreditar que só um homem as salvará deu ainda pior resultado. A amargura, a vingançazinha, a retaliação, as doenças físicas e mentais, e a perpetuação de seres humanos, que repetem os mesmos padrões de comportamento.

Mas a solução não é certamente a que se nos apresenta esta série.

E a educação que se deu aos mileniais, americanos e não só, para evitar que sofressem o mesmo que nós. A infantilização. O paternalismo, a celebração de qualquer coisa que façam ou digam. A validação de qualquer neurose, zero contradição. O que faz deles snow flakes, que não aguentam um não. Que acham que podem tudo, tudo lhes é devido, o mundo e a vida não passam de um conjunto de portas abertas e facilidades, que lhes permitirão ser tudo o que quiserem, dizer tudo o que lhes passa pela cabeça, achar que sabem mais do que toda a gente e que todos os que não têm mais de 30 anos e/ou não lhes façam as vontades não merecem viver, ser ouvidos, existir.

Não passam de machistas, preconceituosos, x-fóbicos, fascistas, criminosos, destruidores de lares e do ambiente.

Um bando de pirralhos que, sem saber nada da vida, se acha no direito de apontar o dedo a gente que tem idade para ser seu pai, mãe ou avó, porque os seus ricos paizinhos não tiveram coragem suficiente para os pôr no lugar deles. Lhes dar um mínimo de educação e de respeito pelo próximo.

Pior é quem aceita, valida, acha ótimo. Sem perceber a agenda que está por trás…

Esta série conta a história de três amigas, que se conheceram numa revista com uma tiragem impressionante, lida por 6 milhões de americanos, e que arranjam logo empregos fantásticos assim que acabam de sair da universidade.

Nunca se chateiam, não há uma marca que as distinga umas das outras, amam-se imenso e jamais trocam um gajo pela sua bela amizade. Com uma chefe que lhes permite tudo e mais alguma coisa, que acha tudo fantástico, e que, claro, jamais as critica, porque elas são ótimas e fazem tudo bem à primeira.

Os arquétipos da perfeição.

Toda a série é baseada no seguinte: vamos fazer exatamente o contrário do que esses patriarcais do pior andaram a fazer este tempo todo.

E exagerar na dose.

O resultado? Uma série insípida, panfletária, fútil, superficial e completamente fora da realidade do que é o masculino e o feminino.

Na sombra e na luz.

Uma ideia apenas é veiculada, o que, já se sabe, é receita para o desastre. Se há coisa para que as relações servem é para crescermos uns com os outros. Sem conflito não há crescimento. Sem sombra não há conflito. E sem qualquer um dos dois não há humanidade.

Pode até nem se falar, mas tem de se digerir.

Pirralhas de 26 anos, sem saberem nada da vida, a decidir coisas como: não quero ter filhos. Vou fazer uma dupla mastectomia.

Eu não os tive, mas não o decidi aos 25 anos.

Do que tinha a certeza era de que não os teria com qualquer um, porque sim. A minha Deméter é um dos meus arquétipos mais sombrios. O outro é Hera. Tive um excelente pai como exemplo. Teria filhos e casaria com um gajo que se aguentasse à bronca. Estivesse ali para o que desse e viesse. Sustentasse a coisa emocionalmente.

Não iria abdicar da minha vida por menos do que isso.

O único gajo com quem me veria a fazê-lo não foi suficientemente corajoso para tal, no momento em que deveria tê-lo sido. Veio a ter filhos aos 50 anos. Coisa que, para mim, estava absolutamente fora de questão. Essa foi outra decisão que tomei muito cedo: não seria uma mãe velha. Acho de um egoísmo atroz. Já me custou o suficiente perder o meu pai aos 45.

Deus me livre de fazer filho meu perdê-lo aos 20s.

No caso de Suton, que tinha um gajo que era uma maravilha, um banana, na minha opinião, mas que, no mundo idealizado das crianças, seria ótimo, gajo esse que nunca a contrariava, cedia sempre, um gajo que estava ali para o que desse e viesse, isto não era o suficiente.

Nesta série, dominada pelas mulheres, de uma futilidade avassaladora, zero profundidade, nenhuma consciência, zero conflito real, nada se aproveita.

Boring as hell. 

Foi boa para distrair a cabeça da queda de um mito. Para afogar as mágoas em ficção básica, evitar pensar, deprimir, querer fugir para as montanhas para nunca mais voltar, conseguir trabalhar sem ser despedida, por mandar gente à merda ou assim.

Cumpriu o propósito, take me off the edge. Não deixará lembranças…

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