The Crown

25/09/2018

Tenho andado a ver The Crown e cheguei à triste conclusão de que jamais poderia ser Rainha de Inglaterra…

O que é toda aquela mulherada a entrar-me pelo quarto todos os dias de manhã?

Era ver gente a decidir a que horas acordo e a abrir-me as cortinas e corria-os a todos a gritos e palavrões… Já para não falar no quererem vestir-me e despir-me como se tivesse dois anos. Poupem-me… 

Depois, de que serve ter um gajo e não poder dormir com ele de conchinha? Ter de abdicar do meu relacionamento por causa do povo? Das obrigações profissionais? Do público? Casei-me com o Filipe, não com o povo, valha-me deus… Armei um banzé porque era o Filipe que queria e troco-o assim, por quase nada que me satisfaça? Deus me livre… E está bem que sou discreta, mas não poder manifestar-me ou expressar afeto em público era coisa para me dar muito nos nervos…

Nunca poder tomar decisões por mim, há sempre um conselheiro a dizer-me o que fazer. Gente a dar-me ordens é motivo para sair correndo e gritando… E se não for a murros e pontapés, no meio de uma grande chinfrineira, estão cheios de sorte…

E o que são aqueles jantares oficiais?

Aquelas mesas gigantescas, com dez talheres para cada um, mais quatro copos? Só a quantidade de gente envolvida à mesa era suficiente para a introvertida que há em mim se enfiar no quarto e não sair nunca mais. Já para não falar no facto de só poder falar com a pessoa que está à minha direita. E se for um chato do caneco? Não disser nada de jeito?

Medirem-me o vinho? Isso é que era bom…

Ter filhos e não poder estar com eles? Estrafegá-los de beijos e abraços? Ter de deixá-los aos cuidados de uma qualquer? Para que a reconheçam antes de me reconhecerem? À mãe que sofreu nove meses sem poder pintar o cabelo? A engordar como uma lontra para os ter? E depois não poder curti-los? Filhos por obrigação? Porque é suposto? Já conheço o resultado, não obrigada…

Era o que faltava…

E aquela educação que não me alimenta a sede de conhecimento? O intelecto fervilhante? Que me obriga a bordar e a saber de cor a Constituição? Que vida chata do cacete…

E, pior que tudo, não poder reclamar porque o meu marido, a quem não dou a mínima importância, anda por aí em encontros com os bêbedos dos amigos, encontros esses que envolvem bailarinas e atrizes? Não poder chamá-lo à pedra, enquanto ele se diverte, eu aqui, a cumprir obrigações? A levar com gente chata, assuntos que não me interessam?

Comigo não, violão…

Está bem que não sou de ficar na sombra de gajo nenhum, apesar de odiar o palco e as luzes da ribalta. Mas daí a aceitar que o meu gajo ande sempre dois passos atrás de mim vai uma distância grande.

Na boa, Elizabete, podes ficar com a Coroa.

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