The Fall

01/10/2020

The Fall é tão, tão boa que me deu vontade de fazer uma especialização em psicologia forense. Faz mais pela tentativa sempre infrutífera da amena convivência entre os opostos do que qualquer teoria ou ideologia, impostas à força, sem qualquer fundamento, de nenhuma espécie.

Nomeadamente Gibson, a personagem de Gillian Anderson.

Exceção feita à substituição da palavra chairman por chairperson e à menção da palavra patriarcal, eventualmente mal aplicada no contexto, apesar de compreensível e por isso passa, pela protagonista.

The Fall é uma escola sobre diferenças, principalmente psíquicas, entre homens e mulheres. E um bálsamo. Por nos mostrar que não somos melhores nem piores do que o sexo oposto.

Muito menos “parvas”, por seguirmos a nossa natureza.

Por não pormos o ego à frente de qualquer coisa, nomeadamente quando envolve filhos, família. E procurarmos satisfazer as nossas necessidades emocionais. Não por capricho do ego, mas por ser só assim que funcionamos.

E, por sua vez, o mundo funciona.

Não há, em momento algum da fala de Gibson, qualquer sinal de condescendência ou paternalismo. Sequer numa tentativa de compensar o excesso de rigor da sombra do masculino. Tal como não há qualquer excesso de matriarcal. Aquele legalize em que tudo é permitido.

Apenas de humanismo. De perpetuação da vida, condição quase inerente à natureza feminina.

Não se trata de fraqueza do feminino, mas a impotência é manifesta em alguns momentos-chave. A solução que Gibson propõe para a mulher de Spector, em contraponto com a que propõe Burns. E a consequência dramática que decorre da escolha da solução masculina.

E o momento em que Gibson tem de autorizar a que o seu diário privado seja analisado pela polícia. Em que constata que, mesmo preso, o segundo personagem da série tenha a intimidade de Gibson nas suas mãos. Apesar de esta se encontrar numa posição de poder.

Consciência das diferenças entre homens e mulheres e não supressão das mesmas.

O masculino psíquico de Gibson está devidamente integrado.

Quando entende o lado médico da questão, mas não se deixa levar pelo feminino, o matriarcal, não permitindo que lhe afete o discernimento. Ao mesmo tempo, não cai no excesso de masculino. Apenas pretende responsabilizar Spector pelos seus atos. Protegendo ao mesmo tempo a comunidade feminina de um predador.

O diálogo entre ela e Spector é talvez dos melhores momentos da série.

A tentativa que faz de entrar no mundo de Hades. Entender, resgatar, lutar pela vida, como faz todo o feminino consciente e saudável. Em contraponto com Katie, que, nova demais, pretende juntar-se a ele, numa tentativa de o ter, simplesmente.

O feminino também é vítima do seu próprio ego, mas move-se por algo mais profundo.

Nos seus relacionamentos, Gibson manda. Envolvendo-se com colegas de trabalho em posições profissionais inferiores à sua. Agora, pelo menos… Mas escolhe-os a dedo.

O argumento é excelente, os atores muito agradáveis à vista e bons.

Jamie Dornan não merece ficar conotado com o estereótipo mau, perverso, sadomasoquista, psicopata, que vimos em 50 sombras de Grey e agora em The Fall. Mas está irrepreensível no papel.

Apesar de tudo o que se sabe, há um fascínio por parte do feminino em relação ao arquétipo de Hades.

Por Keira, Rose, Katie, claro. E até mesmo por parte da investigadora Gibson. Experiente e treinada pela profissão para esconder emoções como medo ou raiva. O único momento em que veste outra cor que não branco ou preto, optando pelo vermelho, é quando vai encontrar Spector.

The Fall é passado na Irlanda do Norte, Belfast, que não é a minha preferida das Irlandas, por ser muito dark. E se calhar é também por isso que funciona tão bem.

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