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Toda a verdade sobre os índios*

16/02/2014

Os índios são fechados, defensivos, quase hostis. É esta a imagem que me fica do contacto possível que tive com eles e que foi basicamente visual. São curiosos em relação a nós, e em nós incluo brasileiros de São Paulo, olhando-nos de forma descarada, sem reservas nem pudores, mas ficam-se por aí. Foi quase um choque, nunca pensei conhecer brasileiros tão reservados, apesar de já ter tido contacto com alguns, na Bahia, inclusive. O que me permitiu chegar à conclusão de que há uma enorme diferença entre as pessoas que habitam, ou foram criadas, em zonas de mar e em zonas de rio. As de rio são incomparavelmente mais fechadas e mais sisudas do que as de mar. Até ver, é isto.

Gosto de pessoas reservadas, quietas, que deixam no ar um certo mistério, que não se escancaram todas ao primeiro contacto. Deixam-me mortinha de vontade de lhes penetrar na alma. Até me ter dado conta de que, muitas vezes, tanto mistério não passa disso mesmo, de defesa, de inacessibilidade emocional, que é meio caminho andado para relação nenhuma. Ou há intimidade emocional, de parte a parte, e ela é respeitada até às últimas consequências, ou as relações ficam vazias, tornam-se de mera convivência, quase de circunstância, alinhavadas eventualmente por interesses comuns, que estão, aparentemente e para todos os efeitos, relacionados com o intelecto, não com a emoção, a raiz de todos os vínculos, de tudo o que importa, portanto.

Quando falei da minha impressão em relação aos mesmos, justificaram o seu comportamento por traumas do passado e, claro, os portugueses foram identificados como os grandes causadores. Nós somos o que escolhemos tornar-nos, vamos parar com isso de culpar este e aquele. Adiante, dando de barato a influência da História na nossa maneira de ser, não me parece que seja o caso, pelo menos não de forma tão categórica. Os índios, onde ainda os há, são reservados no mundo inteiro, onde inclusive a colonização portuguesa não chegou. O nosso comportamento é muito ditado também pelo espaço em que vivemos, está aí o inconsciente coletivo que não me deixa mentir. Eu estive na selva amazónica, mata virgem, no meio de árvores gigantescas que mal deixam ver o sol. Rodeada de árvores por absolutamente todos os lados. E fiquei com a certeza absoluta de que se tivesse sido criada no meio da selva seria um bicho do mato, mesmo que nunca tivesse tido contacto com outra espécie que não a minha. A selva, mais do que qualquer outro lugar, faz isso connosco.

Seja como for, não deixa de ter a sua graça que, afinal, sejam tão parecidos connosco. Os portugueses, principalmente as gerações anteriores à minha, onde incluo também a minha, são, num primeiro contacto, reservados, sérios, de dar pouca confiança, talvez defensivos, mas não se fecham ao contacto. Respondem quando são interpelados, só não saem abraçando e gritando por aí, principalmente com gente que não conhecem de lado nenhum. Mas não são fechados ao ponto de passarem para fora a imagem de inacessibilidade, quase um sinal na testa com os dizeres: não te aproximes. Desde que tratados com jeitinho, conquistando-lhes a confiança, os portugueses são dos povos mais fieis, amigáveis, hospitaleiros e prestáveis que conheço. E que mais se misturam.

Associo muito a boa relação de grupo dos brasileiros aos índios, já que não me ocorre etnia que mais e melhor viva em comunidade do que eles. É, aliás, uma das suas mais marcantes características. O grupo tem a sua função, e uma das primordiais é a proteção dos e entre os seus membros. Torna-se pernicioso, família incluída e principalmente esta, quando a pressão do mesmo é tal que não permite que os seus membros tenham identidade própria, a sua individualidade, que, para ser alcançada, precisa de ser vivida fora do grupo.

No entanto, e ao contrário dos brasileiros em geral, que acolhem gente de todos os cantos do mundo, no seu grupo de amigos, nas suas casas, nas suas famílias, e eu sou a prova viva disso, felizmente, os índios não se misturam. Parece que esta característica, muito portuguesa, não herdaram… A sensação que tive foi essa, enquanto é entre nós, connosco, os que moram aqui e são dos nossos, tudo muito lindo. Quando se trata de alguém de fora, nada. Falei com um dos rapazes de São Paulo que me disse que as mulheres são iguais, pouca abertura, pouca confiança, muito na delas. Falei também com uma venezuelana que mora lá e que me disse exatamente a mesma coisa, comparando-se com uma local, que tinha os gajos que quisesse, à hora que bem lhe apetecesse. Isto para falar apenas no relacionamento sexual, o mais instintivo e mais impulsivo de que me lembro, que, entre outras coisas, não obriga a convívio no dia seguinte, onde não há dever de fidelidade, como há, ou deveria haver, numa amizade.

Poderia associar a um comportamento de preservação da espécie, não fosse o caso de um preservativo custar um real e o desejo sexual tivesse cor, idade, raça ou religião. É, se não de mais nada, de desejo que se trata aqui e para tal basta um corpo, um olhar, um sorriso.

A individualidade e a relação do indivíduo com o grupo, e fora dele, parece ter sido o grande mote desta viagem. E não podia ter vindo em melhor altura. Nem sempre as viagens são o que esperamos, mas são certamente o que precisamos de viver e, consequentemente, integrar. São uma das melhores oportunidades que temos para nos autoconhecermos mais um pouco e eu, que, como já disse aqui, não vim a este mundo a passeio, faço o meu trabalhinho de casa todos os dias. So help me the Gods…

*Bom, toda, toda talvez não, apenas a minha…

Imagem: Jamiroquai, um dos meus índios preferidos. O outro é o Johnny Depp.

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  • Paula_2700 milhas 17/02/2014 at 06:27

    Partilho o interesse pelos índios em geral (até nasci num dia 19, que segundo a canção é dia de índio :) e pelo teu preferido, tive de sorrir quando vi a foto. Gostei de ler!

    • Isa 17/02/2014 at 10:49

      :) é lindo, o JK. E o outro… :D
      Adorei escrevê-lo, devia-me isto e fiquei feliz de o ter conseguido fazer sem soar a queixume, a crítica, e tal :)
      Bjo

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