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Toró

12/03/2012
Foi só entrar no supermercado que a chuva que ameçava cair todo o santo dia desabou sobre São Paulo. O fim do mundo começa aqui, não sei se já vos tinha dito. Na boa, nós na Europa não sabemos o que é chover. Uma chuvada, mas um toró que só por deus. São Pedro arrastava a casa inteira no céu e inclusive deixava cair granizo, pedronas, do tamanho de pequenos seixos. Esperei, porque não há o que fazer, e pensei na impotência do mísero ser humano sempre que a natureza resolve mostrar quem manda. Mas estava cheia de fome e só precisava ir até à padoca, do outro lado do viaduto. Estava de havaianas, se é pra me molhar que seja pouco. A chuva amainou e resolvi ir. Assim que saí debaixo do toldo percebi que afinal não tinha amainado assim tanto. Tinha, mas ainda dava para me molhar toda. Choveu tanto, mas tanto em tão pouco tempo, que a estrada era uma verdadeira correnteza. E como se já não bastasse, os carros lá de cima, ao passar, atiram com a água que está nas bermas da estrada cá pra baixo, formando um riozinho com uma corrente ainda maior. Esperei que o sinal ficasse verde e lá fui eu. Mas a força das águas venceu a força das minhas pernas e dos dedos dos meus pézinhos, e era ver a minha havaiana a ser levada pela correnteza, estrada afora. Ainda considerei seriamente a hipótese de a deixar para um coxinho, seria a minha boa ação do dia, mas pensei melhor e deduzi: não vou descalça pra casa nem fudendo. E aí foi o meu momento glamour do dia, comecei a correr, saltitando, descalça, pela estrada afora, a esbracejar, proporcionando um verdadeiro espetáculo de luz e cor para os carros parados no semáforo e para o povo que assistia à cena, sorrindo – aqui o povo não tripudia, só sorri -, devidamente protegidos pelo viaduto. Lá continuei, a rir que nem uma louca, sem acreditar que estava descalça, a correr pela estrada a fora, agora com mais convicção, rezando para que um camião não passasse lá em cima e contribuísse mais ainda para uma molha que se adivinhava homérica, um olho na havaiana um olho nos carros, era o que me faltava ser atropelada por causa de uma havaiana, que é linda, que é, mas as minha perninhas são muito mais. Recuperei a havaiana, consegui atravessar a rua sem ser atropelada e sem levar um banho de lama, descalça, claro, e ainda sorri pras pessoas que assistiam de camarote, chegando sã e salva ao viaduto. Lá me calcei e continuei a travessia. Cheguei à padoca encharcada, comi, li mais um bocadinho da cena da vítima, perseguidor, salvador e voltei pra casa, sã, encharcada e salva. E perguntam vocês: e agora, como é que está o tempo? Um calor do cacete, um sol radioso e um céu azul, ponteado de nuvenzinhas brancas, as cinzentas cairam-me todas em cima, tão queridas…

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  • Diana 12/03/2012 at 21:24

    Ahahahahahahahahahahahahah.Pagava para ver. Fizeste bem. Não dá para andar descalça nestas chuvas. Sabe-se lá o que vem na correnteza.

  • Anita Garcia 20/03/2012 at 00:30

    Imagina que te descalçavas e te aparecia uma barata?? Batias nela com o quê??? ;)

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