Totalitarismo nos afetos

26/12/2016

Nas nossas sempre animadas trocas de mails, discorríamos um dia destes, o Tiago e eu, sobre a não escolha. Foi então que me descobri dada a um certo totalitarismo nos afetos e algo impotente face às minhas emoções. Não escolho, mas decido.

Como não me relaciono com muitas pessoas, apesar de conhecer gente de todo o tipo, tendo a achar que cada pessoa dá para tudo. E, quando corre mal, a projeção cai e me desinteresso, dou por mim a pensar se não serei demasiado exigente. E no que é aceitável num relacionamento, amoroso ou outro. Na verdade, trata-se de avaliar se consigo viver com determinada característica.

Quando começo a puxar os fios, descubro uma série de coisas que não consigo aguentar. Que me dão nos nervos, que calo, mas que sei que no fim vão pesar. E que há de chegar aquela parte em que me pergunto: como pude cogitar aguentar uma merda destas. Outras vezes questiono-me se quererei de facto um relacionamento.

Se há casos em que um homem pode fazer o pino, oferecer-me um castelo na Escócia, ter a educação de um príncipe, ser o maior especialista nas artes da sedução, do flirt e do sexo, que não estou nem aí. Também acontece conhecer alguém por quem jamais me interessaria e haver qualquer coisa que me encanta, sem que necessariamente haja tudo o resto, e me veja completamente refém das minhas emoções.

Esta magia, por mais que às vezes me irrite, é o que faz da vida um milagre.

Sei o que me interessa, do que não abdico. Independentemente de ser emocional em todas as minhas decisões. Apesar de hiper analítica, do meu fortíssimo intelecto e do meu lado racional muito presente. Vai tudo raso quando as emoções decidem o que querem e arranjam maneira de convencer o resto do pessoal que mora na minha cabeça, que se une inteiro para me tramar. O amor é muito bonito mas não chega. Ainda que me veja como romântica incurável e pense sempre que se houver espaço, vontade, discernimento, razoabilidade, tato, comunicação, respeito, humildade e consciência, tudo se resolve. Sentido de humor, cumplicidade, lealdade e fidelidade são pequenos atributos para me terem para sempre.

Sou solteira, tens de ser muito especial para mudar isso.

Das melhores frases que li para definir solteiros convictos. Há coisas das quais não abdicamos, não ter de dar satisfações é uma delas, a independência é outra. Depois há o primeiro modelo masculino na vida de todas as mulheres. O meu era um príncipe, é praticamente impossível competir com ele.

Um homem pode ser um Adónis, bonito e sincero, mas se não dá duas para a caixa, é uma porta, um animal, um ogre no trato, adeus. Se é violento e agressivo, demasiado distante emocionalmente, vá de retro.

Pode me pegar pelo intelecto e me seduzir por aí, se não for minimamente afetuoso, adeus. Pode ser bonito, afetuoso, me pegar até pelo intelecto, mas se não tem uma condição social parecida com a minha, mais tarde ou mais cedo, isso vai mexer comigo…

Pode ser lindo de morrer, me pegar pelo intelecto, ter um toque de artista, caio logo, ser afetuoso, mas, se na hora do vamos ver, não tem pegada, meu deus, é uma tristeza muito grande… Pode, tem de, ser civilizado, cavalheiro, generoso, intelecto nos píncaros, giro, vá, saber estar, ser quieto, na dele, mas, se na hora da discussão, no momento em que me dá um ataque qualquer, não for capaz de dar dois murros na mesa e se fazer ouvir, ciao, não me serve. Se não tem caráter, espinha dorsal, se é um cobarde, nem me aproximo. Se não está lá para o que der e vier, epá, esqueça.

Homem que é homem, pessoa que é pessoa, na verdade, tem de servir para tudo. Como eu, na minha megalomania maluca e totalitarista, acho que tenho de servir para tudo. Depois penso duas vezes e pergunto-me se não terei enlouquecido. Caio em mim e peço a deus que me poupe da responsabilidade de ser tudo para alguém e da dependência de querer que alguém seja tudo para mim. Amante da liberdade acima de tudo, pavor absurdo que me sufoquem, para o que me havia de dar. Totalitarismo, imagine-se… E ocorre-me que a única coisa que não tolero é que me tratem mal, me agridam, física ou psicologicamente, e tentem oprimir-me, controlar-me, dominar-me. Seja quem for. E que não fico em relacionamento de espécie alguma, familiar inclusive, em que isso aconteça por sistema.

Dá tanto trabalho relacionarmo-nos que se for com menos gente é mais fácil. E como é com menos gente, essa menos gente tem de servir para tudo. A lógica é mais ou menos esta. Sendo que é raríssimo recorrer a alguém para resolver as minhas coisas. De tão habituada estou a fazer tudo sozinha. Mais ainda depois de ter morado fora e me ter ainda mais acostumado a contar apenas comigo. Como sou do mais independente que há, faz-me imensa confusão gente que precisa dos outros para tudo. Dá-me até nos nervos, confesso.

Num relacionamento temos expectativas, esperamos contar com o outro para alguma coisa, caso contrário, para quê darmo-nos ao trabalho? Há que haver um certo nível de compromisso minimamente equilibrado entre duas pessoas que decidem viver uma vida juntas. Agora que concluo, talvez tudo se resuma a isso. São as expectativas que temos eventualmente de gerir. As necessidades que esperamos ver satisfeitas e cuja satisfação depositamos no outro. Nada mais…

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