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‘Tou fora

24/06/2005

Tenho várias amigas e amigos com filhos. Adoro os meus sobrinhos de paixão, que não são de sangue mas é como se fossem, tenho o maior gosto em estar com eles e até em ficar com eles para os respectivos pais irem curtir umas noites sozinhos, na boa. A sério. Mas é enquanto forem filhos dos outros e eu puder voltar para casa sem eles. Para o sossego do lar. Em silêncio, abençoado silêncio.

Acredito piamente que a vida mude, que nós próprios mudemos muito com a maternidade. Que obviamente os nossos interesses também mudem, naturalmente, está ali uma coisa mínima que chora, tem fome e por aí a fora e não se orienta sozinha. Até acredito que deva ser um milagre realmente mas eu simplesmente não estou nessa. Insisto em ignorar as manifestações evidentes do meu relógio biológico. O fazer uma festa numa criança que não conheço; o sorrir com um sorriso idiota para outra criança que nunca vi na vida; o vozeirão que se torna suave de repente ao perguntar: como te chamas, a outra que nunca vi mais gorda… Não resisto, é certo mas não me tira o sono. Não me apetece ter filhos agora, não me estou a ver numa produção independente. Deixai-me curtir a minha solteirice, os melhores anos da minha vida, estes, sem crianças. Enquanto posso.

E por favor, poupem-me a conversa de fraldas… É que para além de as pessoas virarem uma seca quando lhes dá para casar, ou andam lá perto, é dos programas a dois para os programas familiares e destes de volta ao ninho, piora um pouco quando têm filhos. Porque tudo o resto desapareceu das suas vidas para que só os filhos, as fraldas dos filhos, os biberões, os brinquedos, as roupas, as cadeiras, os carrinhos, os andarilhos, os triciclos tomem conta das vidas dos dois para todo o sempre.

Convivo com pessoas que têm filhos e pronto. Desde o relato das noites mal dormidas, das cólicas, dos vomitanços, da primeira papa, da primeira sopa, da primeira fruta, do gatinhar, do andar, das gracinhas e das birras oiço de tudo. Mas deles, à volta deles, para eles. Tudo o resto não existe mais. O percentil para a esquerda, a minha faz isto para a direita, o meu faz aquilo sei lá para onde. As doenças, os dentes, os piolhos… E é isto. É nisto que se tornam as vidas das pessoas com filhos.

‘Tou fora gente. E ao fim de uma hora já não aguento mais conversa de fraldas. Nem quero aguentar. A minha vida é outra. Os meus interesses são outros e por mais que respeite as maravilhas da maternidade, não é propriamente o meu ideal de serão.

Deixai-me viajar, ler horas e horas seguidas, passar uma tarde na praia se houver sol. Sair de fim-de-semana e decidi-lo na véspera. Beber uns copos valentes, dormir até às quinhentas, acordar de ressaca e bezerrar no sofá, sem preocupações. E sem barulho… Desligar o telefone, a música e a televisão porque sim. Comer o que me apetecer, quando me apetecer. Queimar calorias e repor energias no ginásio tanto tempo quanto aguentar. Usar e abusar da resistência que me resta.

Desligar-me do mundo, ignorar a realidade e sonhar, sem amarras. [Qualquer coisa, estou ao dispor!]

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