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Traveling and moving

09/09/2013
Exceção feita a Marrocos e à Índia, países desfavoráveis a que uma mulher viaje sem a companhia de um macho que ponha todos os outros na ordem, viajei sempre sozinha, por essa Europa afora, por esse mundo afora, por esse Brasil afora. Não tenho a menor paciência pra grupos, para esperar três horas para tomar café, acordo com um mau humor desgraçado e não aguento muita conversa sem primeiro ter tomado pelo menos duas chávenas de café das grandes, para gente que não está nem aí para as condições gerais das pessoas e acha que todos temos o mesmo padrão financeiro, mas que na hora de pagar não se chegam à frente, dividindo tudo por todos e azar de quem não bebe 5 wiskeys depois do jantar. Não tenho muita paciência para esperar por gente que sai para a praia às 3 da tarde, quando o sol se põe às 5. Gente só em doses homeopáticas, já se sabe. Por outro lado, viajar a mata cavalos, a correr de uma porra de um museu pro outro, é coisa para também me irritar um bocadinho.

Não gosto de viajar como a grande maioria das pessoas viaja, travelling without moving não é pra mim. Não desmerecendo alguns museus, não me passaria pela cabeça não recomendar os Jerónimos só porque toda a gente lá vai, por exemplo, não sou turista, nunca fui, nunca tive muita paciência pra isso, sou viajante e como tal conhecer outro país e outra cultura é, para mim, ver como as pessoas vivem, do que falam, como são as suas rotinas, o que gostam de fazer e quais são os seus locais preferidos das cidades onde moram. O que comem, como se relacionam inter-pares, como saem à noite, e tal. Sou meio chatinha com a comida, conhecer outra cultura não passa necessariamente por desfrutar da gastronomia local, principalmente se ela envolver borrego, cordeiro, coelho, carne de cavalo e de veado. Tenho pena dos últimos e a carne dos primeiros mete-me nojo. Também não gosto de comida picante… Prefiro mil vezes ficar numa pousada do que num hotel, apesar de adorar a impessoalidade dos hotéis, como viajo sozinha, gosto do carinho e da simpatia das pessoas das pousadas. Nos hotéis a formalidade chateia-me. Viajo quase sempre sozinha e adoro. Acho que era o Mark Twain que dizia que a melhor forma de te conheceres é viajando. Não podia concordar mais. Não viajo com qualquer um, nem com os meus melhores amigos. Não basta amizade nem intimidade, tem de haver uma coisa maior do que tudo isso, respeito pelo próximo, pelo seu tempo, pelas suas vontades, pelos seus quereres, e liberdade para dizer: não vou, não me apetece, sem pressão, sem chatice, sem imposição de espécie alguma. Apesar de ter sido a viagem mais traumática da minha vida e de ter viajado de uma forma que não gostei – ainda que de in casu o melhor da viagem ter sido a companhia – nem na Índia me escapei do auto-conhecimento, mesmo que só tenha entendido muita coisa dessa experiência muitos e muitos anos depois. 

Quero ir a Buenos Aires, à Patagónia gelada, à terra do fim do mundo. Eventualmente a Cusco e a Matchu Pichu. Percorrer as cidades históricas de Minas, ir à Amazónia e fazer a travessia de barco de Manaus a Belém do Pará. Gostaria de ver as paisagens inebriantes da Nova Zelândia mas acho-a um pouco longínqua, não sei se o farei nesta vida. Não me coíbo de ir se quiser conhecer muito, se a oportunidade surgir, se as condições se verificarem. Mas a ideia de o fazer sozinha já não me entusiasma. Dá-me preguiça, sai mais caro, a solidão já me pesa um bocado, já viajei sozinha tempo demais. Apesar de precisar dos meus momentos comigo, desde sempre e para sempre, independentemente de ser muito menos tímida, muito menos fechada, de conversar com quem conversa comigo, de alimentar a conversa com gente suficientemente interessada em trocar, e de me fechar a gente que só se quer exibir, a ideia de viajar sozinha já não me atrai tanto. A vida muda, nós ganhamos novos hábitos, suprimos necessidades e outras vêm em seu lugar. As vontades mudam, os complexos são resolvidos, os interesses mudam e pessoas novas aparecem em lugar de gente que não nos serve mais. E uma das coisas que mudou foi essa…   
A próxima será provavelmente a Paraty, vou sozinha, na boa… Viagens grandes é que já não apetece muito…

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  • Ana 10/09/2013 at 14:56

    Essas incompatibilidades nas viagens, férias e etc. são do caraças. Eu, que sou um animal de hábitos e dificilmente abdico deles, sigo sempre o lema do "amigo não empata amigo" e acabo por fazer muita coisa sozinha. Mas andar a fazer fretes ou a levar com os fretes dos outros, é que não.

    • Isa 10/09/2013 at 15:04

      não é bem fretes… e depois há aquela coisa do "grupo". Se escolhes viajar em grupo, não dá para simplesmente ires à tua vidinha sozinha, sempre. Sei lá, eu acho isso. E depende dos lugares, claro… E da forma como te sentes nos lugares. Há os que te transmitem mais confiança e os que te transmitem menos. E o que estás disposta a encarar e o que não estás. Na Índia, por ecemplo, é

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