Um negócio como outro qualquer

27/12/2016

Respondeu-me o meu BFF* um dia destes que a terapia é um negócio como outro qualquer. Que a literatura é um negócio como outro qualquer. Não, não é. Pergunta ao José Rodrigues dos Santos. O que o JRS faz não é literatura. É… entretenimento. Literatura é o que faz o teu amigo JN.

Uma amiga disse-me uma vez que não conseguia ler o que escrevo sobre o meu pai, alegando não ler nada que a deixe triste. Porque a morte do pai dela, da mãe, ainda estão demasiado próximas. A minha resposta pronta foi: não leias. Quando podia perfeitamente ter dito: olha que as respostas que tenho tido são muito positivas, as pessoas dizem que as ajudo, porque não lês, talvez te faça bem. O que seria a coisa mais natural do mundo, ainda por cima, é verdade.

A mesma que me respondeu: estás do lado dele em vez de estares do nosso, quando um gajo tentava vender-me uma excursão qualquer em Cabo Verde. Não, não estava do lado dele, não se trata de lados nem de pessoas, mas de temas, assuntos, coisas, sensibilidades.

Chamem-me sentimental, acusem-me de não saber fazer dinheiro, de ingenuidade. Façam inclusive comparações infames entre o que escrevo sobre o meu pai e as bloggers que vendem a intimidade, os filhos, em troca de publicidade a fraldas. Digam que é a mesma coisa. Não, não é.

Não é preconceito com dinheiro, independentemente de o ver como algo, digamos, menor, o que muito provavelmente influencia a forma como me relaciono com ele. Trata-se separar as coisas. Mesmo não havendo almoços grátis e de todos precisarmos de pagar contas.

O métier de cada um é o métier de cada um

Tem a ver com emoções, a sacralidade de algumas coisas, como a intimidade e os filhos. Com o facto de haver coisas com as quais não se negoceia, não dá para ser frio quando estamos a falar de morte, de alguém doente num hospital. Por isso me mete nojo a política americana de saúde, à qual os europeus bem podem levantar as mãos para o céu. As taxas moderadoras não são nada comparadas com o escândalo que é a saúde nos EUA e no Brasil. Independentemente de todas as pessoas precisarem de ser pagas pelo trabalho que desempenham, não me venham falar em hospitais-empresa.

Não, a saúde, as emoções, a intimidade, o sofrimento das pessoas não são um negócio como outro qualquer. Não, mesmo adultas e em plena posse das suas faculdades mentais, as pessoas não têm todas a mesma capacidade de reação, não estão capazes de decidir, o seu discernimento está afetado pelas circunstâncias. E aproveitarmo-nos disso para ganhar dinheiro à conta de um desgraçado, desculpem-me, mas não é um negócio como outro qualquer. É algo que não consigo qualificar, e que está longe de ser bom. Comparo-o àqueles engravatados e muito bem postos que vão ao Alentejo sugar tudo o que os velhinhos têm, a troco de uma patranha qualquer.

É uma questão de honestidade, contar a história toda, deixar que o outro decida, com todas as cartas na mesa. Em vez de o manipularmos para o convencer. E a nós, do que o que estamos a fazer é normal, natural, não tem problema algum.

Não é preconceito, trata-se de não pôr o dinheiro à frente de tudo e o ego acima de qualquer coisa.

*Depois corrigiu, para atividade económica. O meu BFF é moço inteligente e sensível, como deve ser.

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