Livre

Um tédio que a gente nem crê*

28/06/2016

O melhor da aplicação que uso para correr é o facto de me surpreender. No primeiro dia, mandou-me andar 5 minutos e correr um. No segundo, não faço ideia, desliguei as notificações porque me irrita gente falando na minha cabeça, o pessoal que cá mora já é agitado que chegue, convencida de que não precisava delas, que se referiam a outra coisa qualquer que não as indicações que precisava de receber. Foi frustrante, fiquei ali à espera que tempos, a andar como se estivesse alguém a correr atrás de mim, até perceber que a meia hora tinha passado e que tinha corrido 30 segundos, apenas. Ontem não caí nessa, deixei as notificações ativadas e a mocinha surpreendeu-me várias vezes ao dizer: pode começar a caminhar, comece a correr, comece a andar. Ela usa begin running e start walking. Begin e Start, dois verbos que querem dizer o mesmo, mas que me despertam coisas diferentes. Begin dá uma ideia de novidade, de arranque, de potência, de ir para a frente, instiga a vontade. Start dá mais a ideia de se quiseres, podes. Não instiga tanto, é como voltar ao início. Dá a sensação de começar como se ainda não tivesse acontecido nada. Para além da variedade, de que preciso como de pão para a boca, a sensação é a de que quando já estamos a sentir o tédio a invadir-nos, ela diz: comece a correr. Quando o cansaço começa a querer apossar-se de nós, ela diz: comece a andar. E por aí vai. É mesmo uma sensação nova, ao contrário do que acontece quando ando, na meia hora da volta sinto as pernas pesadas, o ritmo mais lento. Depois de correr, não, parece que ganho mais vitalidade, as cores dos murais na marina ficam mais vivas, as minhas pernas gritam por agitação e os músculos deixam de doer. É uma sensação diferente da que sinto depois de todos os outros desportos que fiz anteriormente, e foram muitos, exigentes, fisicamente desafiadores e extenuantes, tipo Step ao triplo da velocidade que as pessoas normais praticam. Uma sensação de liberdade e de bem-estar difíceis de descrever e complicadas de acreditar, principalmente para quem a corrida era um dos maiores monstros de que há memória e um mito só comparável ao do Cavalo de Tróia. De confiança total, ao mesmo tempo que a nossa conexão sai fora do ego, o nível de consciência é superior ao de todos os dias, do ego e da persona, que é mais ausência de consciência do que outra coisa qualquer, e por isso o acesso a um verdadeiro poder, um dos maiores afrodisíacos mentais de que tenho memória.

passeiomaritimo

De resto, tenho cada vez menos paciência para personas, para a minha e para a dos outros. Quero autenticidade, saber o que move e comove, o que mexe e remexe, o que faz rir e o que faz chorar. O que te tira do eixo, te apruma, te faz os olhos sorrir, o coração cantar e a alma exultar. Pouco mais me interessa e tudo o resto me entedia de morte. A não ser o que vai além da projeção, te toca no nervo, na ferida, te faz ir mais longe, mais fundo. Por ser o que te torna diferente, rico, único e especial.

*”Na volta que o mundo dá”, Vicente Barreto e João César Pinheiro.

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