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Vamos ao circo

03/07/2005

Não resisto a festas. Não são umas festas quaisquer. Não são raves nem bailes de máscaras, a esses podem bem poupar-me… Muito menos festas de empresa ou de Natal. As festas de anos são coisa banal, assim como assim há muito que viraram meros jantares. O que eu gosto mesmo é de festas de crianças. Mas não de aniversário. De escola. De Natal ou de fim de ano é indiferente. Desde que envolvam crianças que me sejam queridas e exibição de talentos, ‘tou lá. Na primeira fila!

Assisti a umas quantas da M. Ainda outro dia fui à do V. E a última foi 5 em 1. Cinco crianças, cinco, sendo que dois são irmãos, outros dois idem mas gémeos e outra é prima, cujas idades vão do um aos cinco anos.

Como poderia recusar assistir aos meus amigos C e T a cantar as galinhas andam doidas, com gestos e tudo? Eles bem que se esconderam lá atrás dos outros pais mas não tiveram sorte nenhuma. Está tudo documentado como convém. Filmes e fotografias para mais tarde recordar, quiçá fazer chantagem quando algum deles ocupar cargos importantes…

O L, um cotomiço de um ano, de crista no alto da cabeça e os respectivos pais, de galinhas coladas nas t-shirts, a gesticular e a cantar em palco perante uma plateia ululante não se vê todos os dias e não perdia nem por nada. O miúdo estava que nem sabia bem o que se passava. No entanto, com as galinhas cada vez mais doidas que o raio da música não havia meio de acabar, espanta-me como é que o L não teve uma crise de choro das valentes.

O mal destas festas é que demoram muito tempo e até vermos as crianças todas que queremos temos de apanhar com os professores a fazer figuras tristes, a gritar para anunciar o artista que se segue, sem se lembrarem que o microfone que têm na mão serve para isso mesmo, para evitar gritar que ali ninguém era surdo. Olééééé, oláaáááá a sala 5 é o melhor que hááaáááááááááá. E tratarem as pessoas como se elas fossem atrasadas mentais. O que vale é que elas se portam como… Estão a gostareeeeeee? Siiiiiiiiimmmmm. Está tudo beeeeeeeeeeeeemmmmmmmmm? Estáaáááááááááá!

Valha-nos as demonstrações dos mais pequeninos. Vestidinhos a rigor, uns choram, outros esquecem-se do que estão lá a fazer e embasbacam, de olhos fixos na plateia mais do que cheia. Outros não estão nem aí para a actuação e dizem adeus ao pai, à mãe e a quem mais lhes responder. Falam de cima do palanque com quem reconhecem cá em baixo, saem a meio… É lindo.

Também não era mal visto que se ficasse pela actuação das crianças… Já ver os pais a actuar não me agrada tanto. Deprime-me de certa forma quando um diz que é urso, o outro palhaço, a outra vaca e o outro porco… Com desenhos a acompanhar não vá a gente enganar-se e desatar a insultar quem não deve.

Para grande tristeza minha o T já disse que isto não faz. Nem entra no palco aos saltos e muito menos às cambalhotas…

A procissão ainda vai no adro e o A acaba agora de cantar, ou de gesticular, com o ar mais sério do mundo a música do chinês da Adriana Calcanhoto. A letra não interessa porque me bastou vê-lo vestido de chinês, com o chapéu a cair-lhe para a cara, a andar à toa de um lado para o outro e lembrar-me que a gémea dele se baldou à última hora. Aqui está uma criança com discernimento que não embarca nestas fantasias.

O M, de pétalas à volta do pescoço, lá vai cantando e correndo enquanto espreita pelo canto do olho a ver se descobre um rosto que o salve no meio de milhentos clãs familiares que cada vez são maiores. Toda a gente assiste às proezas das crianças. Pais, mães, avós, bisavós, primos, tios e quem mais se quiser juntar à festa.

Não há respeito nenhum pelos artistas, está uma barulheira que não se pode mas não é por isso que eles se chateiam. Lá vão falando e actuando, todos a olhar de lado, sem tirarem os olhos do professor, que lhes vai dizendo o texto. Não se percebe nada com o ruído de fundo e os pais são os piores. Frenéticos, de um lado para o outro, a filmar e a fotografar, babados com a vedeta em potência. Às vezes a lagriminha no canto do olho e o abraço sufocante no pobre petiz já esborratado compõem o ramalhete.

A L, vestida de paus, faz espelho com a melhor amiga, vestida de copas, e nem tento perceber o porquê da indumentária. A nossa obrigação acaba aqui e eu estou com uma fome que nem vejo que estas festinhas já tiveram melhores dias e a parte dos comes e bebes já era.

Saio dali a pensar que é muita produção. Os fatos, as coreografias, as cantorias, os textos, tudo muito bem ensaiado, durante um ano inteiro, para que o espectáculo final seja um sucesso. Uma palavra de conforto e toda a minha solidariedade para com professores e auxiliares porque não me parece que seja fácil… A vontade de desistir logo em Outubro deve ser muita…

Segue-se a M. Outra escola, outra idade, outro desafio. Uma peça de teatro, com textos dos actores, de 9 anos, ensaios e tudo e mais alguma coisa a cargo dos alunos. Correu bem, sem enganos e com muito sentido de humor. Os colegas de quem ela me fala tantas vezes têm finalmente uma cara.

Faltei ao teatro da M com muita pena. Parece que a Broadway ao pé dela é coisa de amadores. Mas de resto assisti com grande emoção à festa de final de ano das minhas sobrinhas brasileiras. Quanto mais actividades, mais exibições. Provas de natação das duas, com direito a medalhas, e de patinação da J, coisa mais linda. De fatinho de lantejoulas e patins de rodas paralelas, com um jeitão danado para tudo e uma concentração de profissional. A mãe delas bem pode dizer que estes espectáculos servem para os professores mostrarem “quão bem amestrados estão os nossos filhos” que eu bem a vi de lágrima a correr pela cara abaixo tal foi a emoção. Seque-se o ballet. O Can Can, de saias rodadas, com folhos e tudo, meias de rede, cabelos coladinhos e maquilhagem a preceito, ali andam elas aos saltos para a frente e para trás, ao som da música e das palmas do público que não se contem.

Já sem podermos com as pernas, muito menos com as costas, com os joelhos a estalar e sem posição, assim que a festarola acaba queremos mais é pôr-nos a andar dali e descansar os ossos e o que calha, de preferência em sofás bem almofadados.

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