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Vamos embora que me doem os calos

16/08/2005

É muito giro esta coisa dos 30 anos e tal, um gajo sente-se bem, consigo em particular e com o mundo em geral, resolve-se e mais não sei quê. Que se lixe o futuro dos empregos das nove às cinco, das casas, dos carros e da família que não constituímos porque ainda não chegou a hora, porque temos mais e melhor para fazer.

Com este calor de derreter as pedras da calçada, cada vez mais branca, a encandear-nos as vistas juntamente com as hordas de turistas que invadem o Bairro Alto ao fim-de-semana, onde nem sequer há lugar para o carro, o único sítio em Lisboa onde isso acontece em pleno mês de Agosto, apetece é ir beber uns copos valentes, com o mínimo de roupa possível, que o calor prolonga-se noite fora.

É tudo muito lindo mas o corpinho já teve melhores dias e por mais horas que se passe no ginásio chega a uma altura, cedo, cedo, em que não dá mais. Dentro dos bares não se aguenta e cá fora é uma chatice porque não há lugar para um gajo se sentar uns minutos a descansar as pernas e o lombo. Os degraus das entradas dos prédios não contam porque são incómodos. Só de pensar na trabalheira que dá levantar-me, se ninguém me dá a mão para ali fico a não ser que haja uma grua por perto, perco logo a vontade mas as pernas falam mais alto e não tenho outro remédio senão sentar-me uns minutos, que levam mais tempo do que o necessário, que se a elasticidade nunca foi grande coisa agora assemelha-se mais a uma armadura ferrugenta, com as articulações dos joelhos a chiar, do que outra coisa. Não sei o que hei-de fazer às pernas quando começam a ficar dormentes ou quando alguém quer passar e tenho de as encolher. Se antes me sentava no chão, de qualquer maneira, sem quaisquer problemas, hoje nem na relva me aguento dois minutos sem me começar a mexer por causa das costas, das pernas, dos joelhos e do que calha. Se usasse menos calças da minha irmã mais nova, o cinto não me marcasse a barriga que quase me fura o estômago saliente e a sandalona dois andares fosse substituída pelo chinelo raso talvez me facilitasse a mobilidade. É um facto, mas não é só.

Bebo cervejas uma noite inteira que não há cabeça que aguente os whiskeys de outrora. O corpinho também não e o melhor mesmo é não fazer grandes misturas. Nem preciso. Parece que as defesas se foram juntamente com os 20s e agora qualquer coisinha bate a triplicar. Tomo consciência do corpinho muito rapidamente e chega a uma altura que já só me quero é ir embora antes que me falhe a força nas pernas, mesmo antes de cair para o lado de sono. Quais Lux quais quê. É os pés que nem os sinto, as pernas que se arrastam e a cabeça que diz: vai-te embora filha antes que seja tarde, desates a ficar com mau feitio e te pegues à chapada ou aos gritos com quem não deves.

E o dia seguinte? Antes eram só umas horas, uma manhã ou uma tarde caso me tivesse esticado até às 9 da manhã. Agora, qual casamento cigano, são três dias, ou dois, ou um dia inteirinho a arrastar-me da cama para o sofá, do sofá para a cama, a jurar que não me meto noutra tão cedo mas quem me manda a mim… A desatinar porque acordei tarde e podia ter ido à praia se ao menos pudesse arrancar a cabeça e trocá-la por outra que latejasse menos. E fala mais baixo que estou que nem posso.

E as cruzes??? É que nem um concertozinho pífio de uma horita se aguenta. A música puxa por mim e salto e danço enquanto as pernas me permitem e os rins não começam a dar guinadas, enquanto não me desequilibro para cima dos que estão à minha volta, com valentes pisadelas que é para aprenderem que preciso de espaço, e os braços não ganham vida própria e se soltam para trás e para a frente correndo o risco de pregar uma chapada no vizinho. Canto alto e bom som enquanto não se me falha a voz e tento abstrair-me do peso das pernas que a idade não me pesa nem um bocadinho. Mas não adianta. Paro e sinto-me alien enquanto vejo a criançada aos saltos e aos berros durante duas horas. Quem me manda a mim armar-me em resistente e não comprar bilhetes para as bancadas?

Ai vou, vou, comprar um banquinho daqueles que se dobram e desdobram e carregá-lo comigo para o que der e vier. O problema depois é as costas, com ossos a mais e postura de menos, ainda estou para saber para que raio é que comprei esta merda deste banco que pesa chumbo e nem costas tem…

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