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Verão azul

21/06/2005

A propósito da edição em DVD do Verão Azul e de uma amiga ter ameaçado que iria oferecer a colecção ao próximo que fizesse anos, fiquei a pensar se quereria ou não.

Ofereci à M, quando ela tinha um ano, uma cassete do Marco, o do porto italiano, para poder matar saudades das tardes infindáveis da meninice, no tempo dos desenhos animados em japonês, com muita moralidade e pouco sangue. O Marco e o Macaco Simão eram os meus “bonecos” preferidos, bem pequenina era e bem que chorava baba e ranho sem perder um episódio. Naturalmente que a M ao fim de dois minutos começou a ficar impaciente e eu a agarrá-la e a mantê-la quieta sem que os olhos se me despegassem do ecrã.

Se ver o Marco não me afectou grandemente passados trinta anos, não sei até que ponto, e com outras séries, isso aconteceria.

Vi outro dia o Modelo e Detective e apesar de ter gostado de matar saudades do David Adisson, de me voltar a rir com as cenas dele, aquilo pareceu-me tudo um bocado ridículo. Já com os filmes, por exemplo, se há alguns que não tornaria a ver nem amarrada, outros há que entendo que se dá até mais valor e se gosta mais depois de se verem duas e três vezes. O Eduardo Mãos de Tesoura, assim só para dizer um dos filmes da minha vida, bem que o posso ver 30 vezes que hei-de gostar. Se já vi umas cinco e é o que é…

Lembro-me das tardes de Verão Azul em casa, em que sonhava viver numa aldeola ou numa vilória ao pé do mar para poder andar de bicicleta à vontade. De sonhar acordada com o Pancho, de o achar tão mais velho e da pica que isso me dava. Da porreiraça da Júlia e do avozinho Chanquete. Dos putos mais novos, das miúdas, do Xavi… De viver os episódios como se as histórias se passassem comigo e com os meus amigos daí a uns anitos. Poucos mas na altura pareciam bem longínquos. Das paredes brancas e daquele mar de um azul que não dava para acreditar, que me entrava nos olhos e me iluminava a alma.

Agora que sei que tiveram todos um fim que Deus me livre, que um morreu de overdose, o outro é engraxador, a outra virou mulher da vida, enfim, que tiveram todos um fim desgraçado a não ser um que parece que é engenheiro ou assim, não tenho vontadinha nenhuma de voltar a ver a série.

Esta coisa de, à viva força, querermos tantas vezes voltar atrás para viver outra vez aqueles anos, daquela maneira, exactamente igual, cujos pormenores se nos mantêm vivos na memória como se os tivéssemos vivido ontem, não me parece nada saudável. Até porque agora os gajos me iam parecer todos uns putos irritantes, com os seus problemazinhos que já não fazem sentido nenhum, os diálogos não me iriam dizer rigorosamente nada, as aventuras muito menos e lá se quebra a magia da recordação de uma adolescência que parecia eterna.

Cada coisa a seu tempo e se calhar o melhor mesmo é guardar as boas referências que tenho da série e recordá-las na memória, vivendo-as como as vivi na altura. Algumas meio apagadinhas outras meio romanceadas, com pormenores que se não são bem aqueles também não faz mal, assim como assim já não me lembro bem e antes recordar o que de melhor se viveu e deixar para trás o que nos torna amargos.

Acontece o mesmo com livros. Quando quando reli o Siddhartha a magia do rio perdeu-se. Porque a expectativa era enorme. Porque é a passagem que mais me marcou e poucos anos depois com a memória vazia das palavras mas plena das emoções, foi com os olhos ensombrados que fechei o livro e o arrumei num cantinho, com a data da primeira vez que o li, pode ser que a sombra se vá num dia de sol e a magia do rio me fique para sempre fresca na memória.

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