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Vicious*

17/08/2014

Os ciclos são o diabo, é como se a tua cabeça fosse uma máquina de lavar roupa, quando o tambor gira a uma velocidade alucinante e a roupa não sai do mesmo lugar, chama-se centrifugação ou lá o que é.

Dás por ti e a tua cabeça está fixa numa situação, a andar em círculos, sem conseguir sair dali. Imaginas diálogos, agressões, respostas, contra-respostas. Preparas-te para o ataque, apesar de quereres paz, queres fugir, mas não consegues sair dali, daquela espiral, daquele ciclo, é horrível e fica cada vez pior. Queres resolver a qualquer custo, estás pronto para a pior das batalhas, na verdade queres resolver uma série de batalhas perdidas durante uma vida inteira. Freud chama-lhe fixação, acho, Jung dizia que isso acontece quando um complexo é constelado. O pensamento é obsessivo e tu és tomado por uma força do mal que te faz dizer e fazer as maiores barbaridades, que repudiarias noutra qualquer circunstância. Até consegues ver o acumulo de todas as outras situações que reportam ao mesmo complexo, e isso ganha uma força tal que o teu ego é completamente apagado no processo, só o complexo fala, grita, descontrolado, sem travão nenhum. Independentemente do outro lado até te ter dado motivos para isso, reages ao objeto do complexo de forma exagerada, quase enlouquecida, e nem queres saber de onde isso vem, sequer te apercebes. Só depois…

É ruim e não é. É sempre péssimo surtar, perder o norte, o sul, principalmente o centro. Damos preferência a conversas civilizadas e partimos do princípio de que o outro lado é sério, quer o mesmo que nós. Mas quando não se verifica sério e ainda te quer fazer passar por estúpido, então é o fim. Principalmente quando percebes que é o mo alheio, que não é uma retaliação a um comportamento teu. Um mo de ir alfinetando aqui e ali, de tortura do silêncio, até te moer tanto que já não consegues reagir. É numa tentativa de evitar isso que te perdes e é aí que o complexo te pega. Se é para ser agressivo, que se seja logo, que se mostre ao que vem, quero dizer. A agressividade passiva é uma coisa que irrita. Não te basta sofreres a agressão, também tens de te sentir culpado. Tira qualquer um do sério.

Também não é bom sinal chegar a esse ponto, mas é essa a natureza dos complexos. O lado bom é que de alguma forma resolves, com uma dose desnecessária de agressividade, mas resolves. Impões limites e mostras que não só não admites que te façam de idiota, como que não estás para brincadeiras. Não é motivo de orgulho, mas também não resulta em culpa, nem em raiva, depois, a que vem da sensação de ter sido enganado, levado, outra vez. Se há coisa que um português odeia é ser levado, se há coisa de que desconfiamos é que nos querem enganar…

É um vicious circle, que tem tanto de vicioso quanto de cruel. No sentido em que não sais dali, estás preso na tua própria cabeça e por mais doces que comas, por mais que saias de casa, por mais que te distraias, por mais manobras de diversão que arranjes, o pensamento continua obsessivo. De certa forma precisas que seja assim, é isso que te dá força para continuar a lutar pelo que é teu, pelo que é justo, pelo que te pertence quase por decreto, por teres enfiado na cabeça que desta vez irias até ao fim, até às últimas consequências, whatever it takes… Mas o meio, os recursos que passas a usar corrompem-te o coração, que já havia sido traído e não tinha gostado, a confiança e a fidelidade, valores que te são muito caros, o que tens de mais precioso, traídas uma vez, traídas para sempre, e toda a energia que normalmente usarias para fazer um monte de outras coisas fica fixada ali, da pior forma…

É a segunda vez que a mesma estrutura me tira do sério, que me deixo tomar, que caio na armadilha. Mas a sensação da primeira vez não é a mesma que da segunda, desta vez não houve lugar a impotência de qualquer espécie. Apenas a alguma raiva. Uma raiva surda… Ando aqui há tempo demais para saber que é um sinal claro de que há aqui algo de muito concreto por resolver, por lidar, por atentar. É bem enraizado, sei o que é e tudo, tenho uma ideia pelo menos, também ando a evitar rótulos, são difíceis de desfazer. Mas não sou de desistir, apesar de haver momentos em que só me apetece é morrer. E a descoberta de uma raiz de tantos dissabores, e pelo menos o domínio mais ou menos controlado do complexo, equivale certamente a mais liberdade, mais tranquilidade, mais paz, menos cabelos brancos e menos chocolate a acumular-se nas coxas.

*@set. 13

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