Viva o Socialismo*

12/09/2021

Das prioridades de cada um, cada um sabe.

O Miguel Sousa Tavares é desatento e nós somos burros.

Viralizou a pergunta de Miguel Sousa Tavares, que lançava a hipótese de um jovem em início de carreira ganhar 2.700€ brutos. De facto, não adere, nem de perto nem de longe, com a realidade. Mas a paródia que se fez com a pergunta do apresentador desvia a atenção de três pontos que me parecem ser os essenciais:

1) Alguém que receba 2.700€, leva para casa uns 1.800€. E custa à empresa cerca de 4.150€. Quer dizer, que este “jovem” é pago a 4.150€ e chegam-lhe à carteira 1.800€. 2.350€ são impostos. Isto é escandaloso e é um roubo. Numa transação, o Estado fica com mais dinheiro do que a pessoa que trabalhou. É um saque. E ainda vai comer IRC à Empresa. Temos uma política fiscal que é inimiga de quem quer arriscar, empreender, criar emprego e contratar pessoas. E é inimiga também de quem consegue receber um bocadinho mais do que uma miséria. Aqui está uma das grandes chagas do nosso país.

2) O segundo problema é cultural. É que achamos que um tipo que recebe 2.700€ é rico. Que quem recebe 30.000€ por ano é rico. Nós temos um ordenado mínimo muito baixo, mas temos um enorme problema que é ordenado médio. Por isso é que quando ouvimos 2.700€ ficamos malucos. Porque os ordenados médios e mesmo um pouco acima da média não chegam a esses valores. Nem em início de carreira nem no fim. Mas com 2.700€ brutos, se uma pessoa viver em Lisboa, sozinha, ou por exemplo, sozinha com um filho, não vive sequer folgada. Quanto mais rica.

3) A terceira questão é educacional. O nosso sistema de ensino baseia-se sobretudo na memorização. Só valoriza a capacidade de sucesso em disciplinas que são as mesmas desde o tempo da outra senhora. Continuamos a achar que é mais relevante ter 80% a Matemática que ser presidente da associação de estudantes, e saber os reis todos a jogar bem hóquei, ou dominar fisico-química querendo seguir jornalismo do que participar do clube de teatro. E todo o ensino é formatado para a ideia de arranjarmos emprego numa organização qualquer. Os médicos num hospital, os tipos que tiram Direito num escritório, os economistas numa grande empresa. Errado. O que devíamos ensinar as pessoas é terem, pelo menos, o sonho, de criarem o seu sustento. De criarem riqueza. De empreenderem. De acrescentarem valor e serem (bem!) pagas por isso. No quadro de uma empresa seremos sempre super substituíveis – a geração qualificada assim o garante – e por isso sempre mal pagos. A cultura do trabalho por conta de outrem ser a regra quase sem exceção é um entrave ao crescimento do país.

*O título deste post é da minha inteira responsabilidade e autoria. Os sublinhados a bold também. De resto, concordo em género, número e grau com o Tim Vieira.

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