Livre, Livros

Voz

09/03/2022

Diz-se a todos os escritores e artistas em geral, nomeadamente aos que usam as palavras para criar, que precisam de encontrar a sua voz.

Quando perguntam a um escritor qual o momento em que percebeu que o seria, a grande maioria começa por falar das redações da escola, de ter boas notas nas mesmas. De escrever para o jornal da escola; ganhar concursos de escrita de contos. Há os que falam também em diários.

Eu escrevia cartas. Longas, de dez páginas, no mínimo.

A minha incontinência verbal vem de longe… No entanto, a minha cabeça sempre foi muito mais rápida do que a velocidade a que escrevo. E e faço-o muito rápido. Para não me esquecer de escrever tudo o que tenho para dizer. A minha letra é que era, e é…, o diabo…

Às vezes, quase impossível de decifrar pelos destinatários.  

Todos os livros que escrevi até agora são dirigidos, e dedicados, a alguém. Disse no outro dia a uma amiga que são como longas cartas. Tão grandes que tiveram de ser transformadas em livros…

Se tenho uma voz, é essa.

Escrevo como falo. Têm-mo dito várias vezes. Lembro-me do Tiago dizer, em relação ao Message in a Bottle, que nunca tinha lido nada parecido, muito menos igual: “uma longa conversa com o leitor”.

O próximo, que está em processo, será também escrito como se estivesse a falar com o destinatário, que é bem específico, no caso concreto, e cuja identidade será protegida, como foi noutros, exceto o último, por motivos óbvios.

O primeiro era para um destinatário imaginário. O segundo, uma série de cartas de remetentes diferentes, foi para o Sr. Freud.

Sempre adorei escrever cartas. E recebê-las.

Hoje, encontrei este texto belíssimo, sobre cartas que escrevemos e não mandamos. E tenho ainda mais pena que esse hábito se tenha perdido. As últimas que escrevi foram para o meu sobrinho, em 2010…

A juventude de hoje, habituada a posts de Instagram e a tweets, não lê um parágrafo de três frases.

É uma tristeza.

As cartas que escrevemos e (não) mandamos, como os meus livros, a nossa voz, são, no fundo, como os pensamentos da Sylvia Plath: her thoughts merely needed a place in the world, not a response.

É por isso que escrevo. Para que haja no mundo lugar para a minha voz. Lugar esse que será sempre, sempre nos livros. Nos meus e nos de todos quantos falam comigo, na mesma língua. Ainda que num idioma diferente, com as suas vozes únicas e preciosas.

No fundo, é sempre para nós que escrevemos. Cartas ou livros, enviadas ou guardados em gavetas, publicados ou por publicar.

E, com isso, apenas procuramos a nossa voz, o nosso lugar no mundo. Reconhecendo-nos dentro e fora de nós.

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