Isto não é só futebol

12/07/2016

Quando o Cristiano, aos 8 minutos, sofre uma falta que o impede de disputar a final de um campeonato europeu, o título que ambiciona desde sempre, enquanto capitão da seleção do país que representa, põe a braçadeira de capitão em Nani e sai de maca, a chorar, depois de ter tentado tudo para permanecer em campo, sabendo da sua importância no coletivo, isto não é só futebol.

Quando, depois do líder sair, acostumados a dependerem dele para tudo, o treinador e os nossos rapazes não se deixaram abater, se mantiveram firmes, unidos, confiantes, enfrentando os anfitriões, ignorando os fantasmas do passado, o estigma, o complexo de inferioridade que tantas vezes nos impede de nos batermos pelo que é nosso, e o facto de o seu líder não estar presente fisicamente, mas deixando que permanecesse nas suas cabeças, fazendo-os acreditar que era possível, que, quanto mais não fosse, haviam de ser campeões pelo seu capitão, isto não é só futebol.

Quando, ao intervalo, Cristiano diz ao coletivo: nós temos condição de ganhar isto, mantenham-se firmes e unidos, e, no intervalo do prolongamento, vai incentivar os companheiros, um a um, dizendo inclusive a Éder que é ele que vai marcar, logo Éder, isto não é só futebol.

Quando, junto de Éder e Fernando Santos, Ronaldo diz, enérgico, a Éder: não há cá faltas, Fernando Santos olha para Cristiano e lhe pede calma e Cristiano cala-se e ouve o que o treinador diz a Éder, isto não é só futebol, nem arrogância, nem necessidade de protagonismo, muito menos ego.

Quando Moutinho segura a bola, não a deixando de maneira nenhuma cair nos pés dos franceses, a passa a William Carvalho, este a devolve a Moutinho, que a passa a Éder, depois do famoso: anda bater, isto não é só futebol.

Quando Éder, sozinho no meio dos franceses, desprezado por estes, em vez de se deixar convencer do que for, se livra de um, chuta à baliza de qualquer jeito e marca golo, fazendo de Portugal campeão europeu, isto não é só futebol.

Depois de Fernando Santos lhe ter dito, no início do campeonato, tu és o capitão tens de fazer o que puderes pelo coletivo. E, de joelho ligado, a coxear, Cristiano incentiva os companheiros e os mantém firmes, convencendo João Mário, dentro da área técnica de França, a entrar para dentro de campo, como que a pedir-lhe, faz só mais este esforço, todos somos precisos neste momento, e ele vai, isto não é só futebol.

Quando Fernando Santos diz, depois de um início quase desastroso para Portugal: eu só volto para Lisboa dia 11 de julho, com a taça, e o coletivo acredita, isto não é só futebol.

Quando, sabendo que joga bonito, mas que nunca ganhou nada, alvo de todas as críticas, de todas as tentativas de desmoralização, com um historial de vitórias apenas morais, um coletivo não se deixa abater e, de empate em empate, chega à vitória final, isto não é só futebol.

Quando Cristiano, impossibilitado fisicamente de celebrar o golo de Éder com os seus companheiros, levanta os braços para o ar, a chorar e a gritar, sozinho, isto não é só futebol.

Quando, depois do jogo e antes de subirem as escadas para irem receber a taça e as medalhas, Nani devolve a braçadeira de capitão a Ronaldo, isto não é só futebol.

Quando Cristiano, sem nunca largar a bandeira portuguesa, sobe aquelas escadas, a coxear, de joelho ligado, e levanta a taça de campeão europeu pela sua seleção, o seu país, o título que sempre quis, a gritar: vamos, isto não é só futebol.

Quando, num domingo histórico para o desporto português, várias atletas nacionais são medalhadas nos europeus de Atletismo e o Rui Costa tem uma prestação digna de nota na Volta à França, isto não é só futebol, sequer desporto.

Quando, dias e dias depois, continuam a chegar-nos notícias das conquistas dos atletas portugueses por esse mundo fora, isto não é só futebol.

Quando, já em solo português, de taça na mão, cumprindo um sonho antigo, o “egocêntrico e arrogante” Cristiano, com a bandeira da Madeira nas costas e a de Portugal à cintura, agradece aos emigrantes portugueses, principalmente em França, que foram incansáveis no apoio aos nossos rapazes, fazendo muito mais do que o que fizemos por eles em casa, em território nacional, isto não é só futebol.

Quando a Torre Eiffel não se acende de verde e vermelho e ainda assim Paris se veste com as cores nacionais e comemora até altas horas da madrugada, encarando, no dia seguinte, de sorriso no rosto, olheiras e voz rouca de tanto celebrar, os seus patrões franceses, isto não é só futebol.

Isto então é que não é mesmo só futebol:

crisekids

Obrigada Éder, Obrigada Patrício, Obrigada Cristiano, Obrigada Fernando Santos, obrigada rapazes, obrigada desportistas portugueses que, contra tudo e todos, ultrapassam o estigma do fado e se sagram campeões. Obrigada. O espírito de sacrifício português mostra, em vocês, que nem só de fado somos feitos. Também somos feitos de raça, confiança, determinação, valentia, trabalho, muito trabalho, união, coesão, humildade e fé.

O mundo inteiro celebra Portugal, onde há um português, há bandeiras verdes e vermelhas hasteadas, sorrisos e barulho. Obrigada pelo que fizeram e fazem por uma nação inteira. Quanto mais não seja, pela inspiração.

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